Na contramão das expectativas cultivadas para o terceiro milênio, diferentes formas de racismo continuam sendo uma realidade em muitas partes do mundo.
O racismo integra a formação social brasileira desde suas origens. A escravidão de pessoas africanas perdurou por 350 anos no Brasil, último país das Américas a abolir esse sistema. Até hoje, o país conserva marcas profundas dessa opressão, materializadas em múltiplos indicadores: na saúde coletiva, na segurança pública, nas políticas habitacionais, no mundo do trabalho e no acesso à educação formal.
Falamos em racismo estrutural justamente para demonstrar que o racismo assume múltiplas formas e vai muito além das injúrias diretamente dirigidas a indivíduos. Mas o que tudo isso tem a ver com a Psicologia?
Na atualidade, psicólogas brasileiras de diferentes abordagens têm chamado a atenção para a necessidade de uma clínica racializada, cujo fundamento, antes de tudo, está relacionado a uma importante crítica às bases históricas e epistemológicas da Psicologia ocidental.
Ainda na década de 1980, o psicólogo social Ignácio Martin-Baró (1942–1989) já chamava a atenção para essa discussão ao denunciar o mimetismo reinante nas práticas psicológicas na América Latina. Martin-Baró argumentava que, quase em sua totalidade, a Psicologia aqui praticada consistia em uma reprodução acrítica e subserviente de teorias e paradigmas importados da Europa e dos Estados Unidos. Segundo o autor, tal reprodução colocava em funcionamento práticas pouco sensíveis às reais necessidades das sociedades locais.

De acordo com Anibal Quijano (1928–2018), transplantes teóricos desse tipo constituem uma expressão da colonialidade do saber. Em outras palavras, as dominações coloniais não ocorrem apenas nos âmbitos político e econômico, mas também nos planos epistemológico e cultural. Dominar o pensamento e as práticas é parte decisiva de qualquer projeto colonial. É com base nesse entendimento que Boaventura de Souza Santos (1940-) defende a necessidade de uma justiça epistêmica.
Enquanto centros colonizadores, nem a Europa nem os Estados Unidos identificaram historicamente o racismo como uma chaga a ser superada. Essa agenda emerge sobretudo em sociedades marcadas pela submissão colonial, sendo justamente nelas que têm florescido os debates decoloniais. A proposta de uma clínica racializada insere-se nesse movimento. Seu objetivo central é enfrentar a cegueira e a surdez da Psicologia para os efeitos do racismo sobre a saúde mental.
A clínica racializada não constitui uma nova abordagem psicoterapêutica. Trata-se, antes, de uma provocação dirigida a todas as abordagens da Psicologia clínica. Nessa perspectiva, compreende-se que o racismo estrutural produz efeitos sobre as subjetividades e a saúde mental. Por ser naturalizado e estrutural, é comum que os próprios sujeitos não identifiquem as desigualdades étnico-raciais como base de seu sofrimento.
Cabe à clínica racializada promover essa elucidação, sempre que isso se mostrar oportuno. Além disso, ela deve criar condições para o trabalho terapêutico voltado ao fortalecimento da autoestima, do senso de pertencimento e da identidade cultural.
Dados do DataSUS indicam que cerca de 77% das pessoas que procuram os serviços dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) se autodeclaram negras ou pardas. A partir da perspectiva da clínica racializada, esse dado pode ser compreendido como expressão das iniquidades sociais tão recorrentes no campo da saúde. Nesse caso, os sintomas psiquiátricos podem representar manifestações das desigualdades sociais enfrentadas pela população brasileira, entre elas aquelas relacionadas ao racismo estrutural.
Como toda atividade científica e profissional, a clínica racializada também necessita de fundamentação teórica consistente e de permanente autocrítica. Nesse sentido, contamos, no Brasil e no exterior, com autores e autoras que têm contribuído de maneira significativa para esses debates.
No contexto internacional, destacam-se as contribuições de Frantz Fanon (1925-1961), especialmente sobre a relação entre colonialismo e alienação psíquica. Mais recentemente, o trabalho de Grada Kilomba (1968-), voltado às relações entre memória, trauma e colonialidade, também merece destaque. No Brasil, mencionamos os nomes de Neuza Santos Souza (1948-2008), Lélia Gonzalez (1935-1994), Cida Bento (1952-) e Sueli Carneiro (1950-), todas refletindo sobre as interfaces entre as desigualdades étnico-raciais, os processos de subjetivação e as formas de organização social.
Já em 1983, com o livro Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social, Neuza Santos Souza articulava a psicanálise ao debate étnico-racial, enfocando os efeitos do racismo na constituição da identidade negra.
Mais recentemente, Bruno Reis publicou o livro Terapia cognitivo-comportamental para a população negra: contribuições para a prática clínica sensível às questões étnico-raciais, fortalecendo a ideia de que mesmo teorias psicológicas gestadas em centros coloniais, por pesquisadores brancos e inicialmente distantes desse debate, podem ser reinterpretadas e instrumentalizadas em favor de práticas antirracistas. Quiçá essa tendência se amplie, alcançando psicólogas e psicólogos de todas as abordagens teóricas.

Segundo Laurentino Gomes, no primeiro volume de sua trilogia Escravidão, as chagas produzidas pelas desigualdades étnico-raciais constituem a demanda mais urgente e a dívida histórica mais importante do Brasil. Essa conscientização tem favorecido o surgimento gradual de articulações em múltiplos setores, cuja finalidade é a reparação histórica. As chamadas políticas afirmativas, presentes na educação formal, nos cargos públicos e na saúde coletiva, são bons exemplos dessas articulações.
A clínica racializada, como expressão de nossas práticas psicoterapêuticas, deve ser pensada como parte desse amplo movimento de reparação histórica e promoção da equidade social. No Brasil, essa necessidade é urgente. Nosso racismo tupiniquim raramente é explícito; ele se apresenta de forma mais sub-reptícia e insidiosa. Molda nossa organização social, assim como molda nossa subjetividade. E é justamente este o território da psicoterapia.
As ações afirmativas mais conhecidas – como as leis de cotas na educação superior e nos cargos públicos, as legislações educacionais voltadas às relações étnico-raciais e a tipificação do racismo como crime inafiançável – são extremamente necessárias no Brasil, produzindo maior equidade em campos historicamente marcados pelo racismo estrutural. A clínica racializada, por sua vez, busca contribuir para a produção de novas subjetividades.
Não devemos considerar essa uma tarefa “menor” em comparação aos objetivos das demais políticas afirmativas. Afinal, autoestima e autovalor elevados, senso de identidade e pertencimento, são dimensões tão relevantes quanto as conquistas materiais e a ocupação de espaços estratégicos na sociedade.
***
Na Plataforma Ser Psicólogo, a assinante tem à sua disposição o curso Introdução à Psicologia Antirracista, ministrado pela profª mestranda Gilvaneide José dos Santos (CRP 15/3910). Em seu conteúdo programático, o curso oferece reflexões sobre racismo e branquitude, a relação entre sofrimento psíquico e saúde mental da população negra, a clínica racializada, entre outros temas. Ao final, a assinante tem direito à certificação correspondente a 10 horas/aula.
Assine já!
Para aprofundamento
Psicologia Antirracista: quando o cuidado também é luta
Psicologia e Racismo: as Heranças da Clínica Psicológica
