Alimentar-se é uma das chamadas necessidades primárias presentes em todos os organismos. É da alimentação que os seres vivos retiram os nutrientes necessários à sua sobrevivência e reprodução. Em sua famosa pirâmide das necessidades humanas, Abraham Maslow (1908–1970) identificou a alimentação como uma das necessidades mais básicas da nossa espécie, antecedendo qualquer outro tipo de preocupação. Apesar dessas formulações, a alimentação é um tema cuja importância ultrapassa amplamente o campo dos estudos nutricionais.
A nutrição humana possui uma dimensão antropológica e cultural. Diferentes povos e culturas ao redor do mundo, assim como diferentes períodos históricos, apresentam hábitos alimentares peculiares e atribuem significados distintos ao ato de comer. Nas culturas orientais, por exemplo, a alimentação cotidiana sempre esteve associada não apenas à nutrição, mas também à comunhão humana. Nesses contextos, valoriza-se o comer em companhia de outras pessoas, como expressão daquilo que alguns pesquisadores denominam comensalidade.
A nutrição humana também possui uma dimensão econômica, uma vez que o acesso à alimentação é profundamente desigual em muitos contextos sociais. Trata-se de um problema tanto quantitativo quanto qualitativo. Há inúmeras situações em que determinados grupos sociais permanecem privados das refeições necessárias para uma vida digna e saudável. Além disso, as desigualdades econômicas contribuem para que as populações mais pobres consumam alimentos de menor qualidade nutricional.
De acordo com Yuval Noah Harari, em Homo Deus: uma breve história do amanhã, a fome foi, durante séculos, um dos grandes flagelos da humanidade, ao lado das guerras e das pestes. Segundo o autor, embora ainda exista em bolsões específicos ao redor do mundo, a fome hoje é concomitante com o enorme desperdício de alimentos observado em diversos países.
Outro aspecto da dimensão econômica da nutrição humana diz respeito à indústria alimentícia e ao mercado dos chamados alimentos ultraprocessados (AUPs). Nos Estados Unidos, os AUPs estão diretamente relacionados à crise de obesidade, especialmente entre a população mais jovem. O mesmo fenômeno vem se tornando evidente em outros contextos, de modo que essa discussão também ganha espaço gradativamente no Brasil.

Nesse caso, observa-se uma clara intersecção entre o campo econômico e o campo da saúde coletiva, tendo em vista que a má alimentação, além de estar correlacionada à obesidade, também se associa a elevados índices de mortalidade.
Conforme argumenta o nutrólogo norte-americano Michael Greger, em Comer para não envelhecer, a alimentação inadequada mata mais pessoas ao redor do mundo do que fatores como o sedentarismo e o tabagismo.
Diante desse amplo quadro de estudos, construído a partir de diferentes linhas de pesquisa, devemos perguntar: quais são as dimensões psicológicas do comportamento alimentar? Em certa medida, essa questão vem sendo respondida ao longo das últimas décadas por meio do conhecimento produzido sobre os chamados transtornos alimentares, reconhecidos pela psicopatologia, especialmente em sua vertente psiquiátrica.
O Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), em sua versão atual (DSM-5-TR), menciona seis categorias principais: anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno da compulsão alimentar periódica, transtorno alimentar restritivo/evitativo, transtorno de ruminação e pica.
Cada uma dessas categorias representa uma forma legítima de sofrimento psíquico que demanda atenção e cuidados especializados. Nesse campo, avanços significativos vêm sendo alcançados pela Medicina, pela Psicologia e por outras áreas das Ciências da Saúde.
Entretanto, é necessário questionar: ao reduzirmos a psicologia do comportamento alimentar ao tratamento dos transtornos alimentares, não estaríamos concentrando nosso olhar nas necessidades de determinados grupos sociais em detrimento de outros? Para as populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica, quais são as questões prioritárias quando pensamos em uma psicologia do comportamento alimentar?
Também precisamos avançar nesse debate, perguntando se existem outras dimensões psicológicas do comportamento alimentar para além do sofrimento e do adoecimento. Em caso afirmativo, quais seriam elas?
A primeira observação a ser feita é que, ao enfatizarmos as dimensões psicológicas do comportamento alimentar, não estamos nos referindo a uma esfera isolada ou separada das demais dimensões anteriormente mencionadas. Ao contrário, a psicologia do comportamento alimentar encontra-se profundamente articulada às questões econômicas e às políticas de equidade social.
Vejamos alguns desdobramentos dessa afirmação.
Mencionamos anteriormente que um dos impactos da disseminação dos AUPs é a crise de obesidade observada entre os jovens norte-americanos. É preciso acrescentar que essa mesma crise produz um efeito em cascata, relacionado ao aumento da incidência de diferentes formas de sofrimento psíquico, como os transtornos depressivos e ansiosos. E não se trata apenas de uma relação indireta.
Diversas pesquisas contemporâneas buscam compreender os impactos diretos que os AUPs exercem sobre a saúde mental de seus consumidores. O que se sabe até o momento é que existe uma correlação significativa entre o consumo frequente desses produtos e problemas como depressão e transtornos de ansiedade. Em outras palavras, não é possível dissociar radicalmente o debate político-econômico de seus efeitos sobre a saúde das populações.
Expandindo essa discussão para além do contexto norte-americano, podemos afirmar que o acesso a uma alimentação digna, tanto em quantidade quanto em qualidade, não deve ser compreendido apenas sob a perspectiva de sua utilidade nutricional. Trata-se também de uma importante estratégia de promoção e prevenção em saúde mental.
Primeiramente, porque alimentar-se adequadamente é fundamental para o funcionamento saudável do organismo. E aquilo que convencionamos chamar de “saúde mental” constitui uma das dimensões da saúde do próprio corpo. Em segundo lugar, porque a alimentação adequada está associada ao senso de dignidade, cidadania e autoestima.
A insegurança alimentar, por sua vez, relaciona-se a sentimentos de desvalia, exclusão e indignidade, todos potencialmente prejudiciais à saúde mental. Onde há justiça social, há equidade alimentar. E onde há equidade, há condições mais favoráveis para a saúde mental.
Minha experiência profissional em uma escola pública e em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) contribuiu para corroborar essas reflexões.
Infelizmente, a insegurança alimentar ainda assombra muitas famílias brasileiras. Não é raro que crianças sejam matriculadas na rede pública de ensino para que possam ter acesso a uma alimentação que suas famílias, por diferentes razões, não conseguem garantir. A merenda escolar, prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/1996), acaba desempenhando um papel decisivo na vida de muitas dessas crianças.
Ao chegarem à escola, pela manhã ou à tarde, elas recebem o desjejum, geralmente composto por frutas ou outros alimentos saudáveis. Durante o recreio, são servidas refeições elaboradas com alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, verduras, carnes e sucos, uma vez que alimentos ultraprocessados e cantinas comerciais são proibidos nesses espaços. É impossível negar os impactos positivos dessa política sobre o rendimento escolar. Nesse contexto, a segurança alimentar conecta-se diretamente à aprendizagem e ao desenvolvimento saudável.
Algo semelhante ocorre nos Caps. Esses serviços costumam atender majoritariamente populações em situação de vulnerabilidade econômica. Neles, os usuários também têm direito a refeições, já que permanecem muitas horas participando das atividades oferecidas. Garantir alimentação de qualidade a essa população, portanto, além de representar um gesto de equidade social, constitui parte integrante do próprio cuidado em saúde mental.
Concluímos estas reflexões reafirmando a necessidade de repensar a psicologia do comportamento alimentar para além dos limites estabelecidos pelos manuais de psicopatologia. Não podemos mais, enquanto psicólogas e psicólogos brasileiros, ignorar os impactos da insegurança alimentar, realidade ainda presente na vida de inúmeras famílias em nosso país. Esses impactos dialogam diretamente com diversas questões que nos interessam enquanto campo científico e profissional.
Se desejamos compreender plenamente a relação entre alimentação e subjetividade, precisamos ampliar nosso olhar para além do adoecimento individual e considerar também os determinantes sociais, econômicos e culturais que moldam a experiência humana de alimentar-se. Afinal, a alimentação não é apenas uma questão biológica ou nutricional: ela também é uma questão psicológica, social e política.
Para aprofundamento
Cultura Fitness no Brasil e o Sofrimento Psíquico
Aspectos psicobiológicos do comportamento alimentar

Parte superior do formulário
Parte inferior do formulário