A Psicologia do Esporte e sua importância para o público em geral

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No artigo anterior, argumentamos sobre a relevância da Psicologia do Esporte em relação às modalidades de alto rendimento, marcadas por níveis elevados de profissionalização. Fizemos um sumário de seus objetivos e dos benefícios que esse campo pode oferecer a atletas e equipes profissionais em diferentes esportes.

Mas o que a Psicologia do Esporte tem a oferecer ao público em geral?

Que relação existe entre as práticas esportivas informais e a saúde mental? O próprio senso comum já reconhece o grande valor de um estilo de vida ativo e sabe como isso pode até mesmo elevar a expectativa de vida. Mas quando recorremos ao discurso científico, como ele sintetiza esses benefícios para a população em geral?

É preciso dizer que esses conhecimentos existem de modo disperso, acumulados a partir de pesquisas em diferentes áreas. Ainda assim, todos eles ajudam a reforçar um consenso: o estilo de vida está entre os fatores fundamentais para uma vida com qualidade e satisfação.

Façamos, então, um sumário das evidências científicas da Psicologia do Esporte no que diz respeito ao público em geral.

Em primeiro lugar, as práticas esportivas regulares beneficiam os indivíduos porque estão relacionadas ao aprendizado de competências e habilidades sociais muito importantes para a vida. Por essa razão, os jogos e as brincadeiras ao ar livre são imprescindíveis na infância e na adolescência. Além dos ganhos físicos que proporcionam, eles contribuem para aprendizados importantes, como o trabalho em equipe e a cooperação – habilidades que continuam sendo exigidas nas etapas subsequentes da vida.

Além da dimensão propriamente lúdica, na infância e na adolescência as práticas esportivas regulares cumprem um papel pedagógico, estimulando habilidades e competências que não costumam aparecer nos currículos escolares. Por meio delas, crianças e adolescentes vão internalizando a ideia de que a vida é feita de vitórias e também de derrotas, compreendendo que, para que os objetivos sejam alcançados, são necessários esforço e disciplina. Além disso, vão assimilando a ideia de que o mundo se organiza em torno de regras e de acordos coletivos.

Na atualidade, a Psicologia do Esporte nunca foi tão importante para essa faixa etária, em função do desafio representado pelas telas. O uso excessivo delas cerceia as práticas esportivas e confina crianças e adolescentes em um mar de estímulos fragmentados e repetitivos. Isso as isola, as sobrecarrega cognitivamente e impede que desenvolvam competências importantes para a vida.

Na vida adulta, praticar esportes regularmente também extrapola a dimensão propriamente física e corporal. Quando bem dosadas, as atividades físicas cumprem o papel de reguladoras das emoções – e isso tem razões neurofisiológicas. Por elevarem a atividade do organismo de modo geral (metabolismo, frequência cardíaca e respiratória, entre outros), as atividades físicas também elevam a secreção de certos neurotransmissores associados à sensação de bem-estar – adrenalina, noradrenalina, serotonina etc.

Pode-se afirmar que a atividade física regular integra os comportamentos preventivos para muitas formas de adoecimento, incluindo o adoecimento mental. Já o sedentarismo, quando associado a uma má alimentação e a hábitos como o tabagismo e o alcoolismo, está correlacionado ao adoecimento, à redução da qualidade de vida e à diminuição da longevidade.

Para além da prevenção, as atividades físicas regulares são cada vez mais recomendadas como parte essencial do tratamento de adoecimentos já estabelecidos, como as síndromes depressivas e ansiosas. Elas não substituem as formas convencionais de intervenção nesses casos, como a farmacoterapia e a psicoterapia. Mas seu potencial, quando inseridas no conjunto dessas intervenções, torna-se cada vez mais evidente – e as razões são tanto neurofisiológicas quanto psicossociais.

Também na vida adulta, as atividades físicas regulares cumprem papéis de sociabilidade. Principalmente as práticas coletivas – como o futebol, o vôlei ou o futevôlei –, acabam propiciando redes de apoio informais a seus participantes. Essas atividades criam laços entre as pessoas e fortalecem os que já existem. As redes de apoio informais, como os grupos de amigos, costumam ser decisivas em muitos casos em que situações de urgência e de emergência estão em questão.

As redes de apoio proporcionadas por práticas esportivas coletivas e regulares também servem para mitigar um grave problema de nosso tempo: a solidão.

Esse tema foi muito bem tratado por Noreena Hertz em seu livro O século da solidão: reestabelecer conexões em um mundo fragmentado. A autora demonstra, por meio de muitos argumentos, que vivemos uma epidemia de solidão ao redor do mundo, e que isso está correlacionado a uma série de problemas que vão desde efeitos nocivos sobre a saúde individual e coletiva até o recrudescimento de ideologias políticas extremistas.

Além das associações religiosas e de outras formas de comunhão humana, as práticas esportivas coletivas e regulares também têm potencial para criar comunidades. Em um contexto como o atual, em que o isolamento está se tornando epidêmico por muitas razões, estar inserido em comunidades com propósito e significado é reconhecidamente benéfico para a saúde como um todo.

A Psicologia do Esporte também tem produzido conhecimentos importantes sobre o envelhecimento humano, dialogando com áreas como a Gerontologia e a Psicogerontologia. Hoje incentiva-se muito o que se passou a chamar de envelhecimento ativo, que é a conjunção entre uma vida longa, saudável e significativa. Obviamente, as atividades físicas regulares comparecem como um dos pilares desse tipo de envelhecimento. Cabe perguntar, então: de que modo?

As atividades físicas coletivas e regulares proporcionam redes de apoio que são muito importantes também no processo de envelhecimento. Além disso, previnem déficits físicos e orgânicos como a sarcopenia (perda progressiva da massa muscular durante o envelhecimento). No entanto, em termos psicológicos, um dos benefícios mais importantes da atividade física nessa etapa do ciclo vital é a construção do senso de autonomia.

Para muitos indivíduos, o avanço do envelhecimento significa a perda progressiva da autonomia física, cognitiva e comportamental. A atividade física regular, dentro dos limites impostos pelo envelhecimento, é responsável pela conservação relativa dessa autonomia, o que está correlacionado com uma vida psicológica mais saudável. Nesse sentido, tanto atividades como a musculação quanto as chamadas atividades aeróbicas exercem papéis muito importantes.

Por estarmos todos sob um paradigma epistemológico cartesiano e fragmentário, naturalizamos a separação entre as demandas “da mente” e as demandas “do corpo”, como se elas existissem separadamente. Em geral, quando nos referimos à importância do estilo de vida para a saúde e para a longevidade, estamos falando da inserção de atividades físicas na rotina dos indivíduos. A partir dessa lógica, os “ganhos psicológicos” tornam-se secundários.

Ao tomar como objeto a preocupação com a saúde e com a longevidade da população em geral, a Psicologia do Esporte busca desconstruir esse modo dicotômico de raciocínio. Aqui não existem “ganhos psicológicos” como prêmios secundários em relação aos benefícios físicos. O que se preconiza é a saúde da pessoa como um todo, sua qualidade de vida em termos gerais e uma longevidade vivida com satisfação e felicidade.

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Para aprofundamento

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REFERÊNCIAS TÉCNICAS PARA ATUAÇÃO DE
PSICÓLOGAS(OS) EM POLÍTICAS PÚBLICAS DE ESPORTE

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Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
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