A Psicologia é a nova Medicina?

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Nos últimos dias, circularam nas redes sociais postagens que afirmavam que, em algumas universidades públicas, a procura pelos cursos de Psicologia havia ultrapassado a procura pelos cursos de Medicina. Historicamente, os cursos de Medicina e de Direito sempre estiveram entre os mais desejados do país. Em números absolutos, continuam sendo.

Essas publicações tomaram como referência o fato ocorrido na Universidade Federal de Goiás (UFG), que, em seu último processo seletivo discente, apresentou um número maior de candidaturas ao curso de Psicologia no Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Na ocasião, a procura pelo curso de Psicologia registrou cerca de 191 candidatos por vaga, enquanto, em Medicina, foi de 137 no mesmo processo seletivo.

De fato, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) registrou um aumento de 112% na procura pelos cursos de Psicologia na última década no Brasil. De 136,4 mil alunos em 2016, passamos para 290 mil em 2026. A maior conscientização pública sobre a saúde mental, associada à naturalização dos serviços psicológicos nas redes sociais, estaria na base explicativa desse crescimento.

O Brasil está entre os países do mundo com maior presença de psicólogos em relação à sua população, com cerca de 268 profissionais dessa área para cada 100 mil habitantes. Na sequência dessa lista, temos a Argentina, com 223 psicólogos para cada 100 mil habitantes, seguida pela Costa Rica, com 142, e pela Holanda, com 124.

Conforme dados do Conselho Federal de Psicologia (CFP), existem cerca de 600 mil profissionais com registro ativo nessa autarquia. Isso significa que há, em média, um psicólogo para cada 350 habitantes no Brasil.

Apesar de os números absolutos serem relevantes, há uma grande disparidade na presença desses profissionais nas diferentes regiões do país. Desse modo, o Distrito Federal (DF) e o eixo Rio-São Paulo apresentam uma taxa superior a 470 psicólogos para cada 100 mil habitantes, superando em muito a média nacional. Maranhão e Pará apresentam os menores índices dessa relação, com cerca de 70 psicólogos para cada 100 mil habitantes.

Vista a partir dessa contextualização, a notícia sobre a superação da procura pelo curso de Psicologia em relação ao de Medicina na UFG não nos fala propriamente de uma novidade, mas de uma tendência que vem se consolidando gradualmente nos últimos anos.

Esse cenário nos convida a refletir sobre a qualidade da formação em Psicologia no Brasil, assim como sobre a necessidade de maior valorização profissional da categoria. Tomemos os casos da própria Medicina e do Direito como pontos de partida para nossas reflexões sobre a Psicologia praticada no Brasil.

A primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), realizada em 2025, avaliou 351 cursos de Medicina espalhados por todo o país. Desses, 243 cursos (69,4%) obtiveram desempenho considerado satisfatório (conceitos 3, 4 e 5), enquanto 107 cursos (30,6%) obtiveram desempenho considerado insuficiente (conceitos 1 e 2).

No mesmo ano, em 2025, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) realizou três edições de seu exame nacional. A edição nº 43 teve aprovação geral de 15,83% dos candidatos e reprovação geral de 79,52%. Já a edição nº 44 teve aprovação geral de 15,22% dos candidatos e reprovação geral de 81,33%. Finalmente, a edição nº 45 teve aprovação geral de 15,83% dos candidatos e reprovação geral de 82,79%.

O que esses dados nos indicam e o que eles têm a ver com o crescimento da oferta de formação em Psicologia no Brasil?

Em primeiro lugar, é importante deixar claro que não é possível proceder a uma comparação direta entre essas áreas, visto que a formação em cada uma delas tem sua própria história e seus próprios desafios. Logo, nosso objetivo com essas menções é outro: acentuar que a expansão quantitativa é sempre um desafio para a manutenção da qualidade dos serviços prestados em qualquer área.

A profissão de psicólogo está regulamentada no Brasil desde 1962, pela Lei nº 4.119, e, de lá para cá, não há nenhum exame específico para a aferição da qualidade da formação em Psicologia no país. Ao concluírem sua formação universitária, a única exigência para o exercício profissional é o registro obrigatório no Sistema Conselhos, realizado pelos Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs) espalhados pelas diversas regiões do país.

O avanço da oferta e da procura por cursos de Psicologia nas últimas décadas nos coloca diante de uma importante reflexão: como ampliar os serviços nessa área sem sacrificar sua qualidade?

Um ponto positivo para a Psicologia é que a formação continuada é uma tendência muito presente nesse campo. Isso ocorre, em parte, em função da insuficiência da graduação quando se trata de preparar os novos psicólogos para o exercício profissional.

Geralmente, o egresso de Psicologia costuma sair da graduação convencido da necessidade de continuar estudando e se qualificando. Dessa forma, há uma grande movimentação em torno de formações complementares, capacitações, especializações e outras modalidades de pós-graduação quando o assunto é Psicologia.

Como sabemos, desde 2004, o Ministério da Educação no Brasil tem realizado o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), cujo objetivo é avaliar o desempenho dos estudantes e, por meio dele, contribuir para a aferição da qualidade dos cursos de graduação em todo o país.

Entretanto, apesar disso, o contexto atual de grande crescimento da oferta e da procura pelos cursos de Psicologia vai indicando que talvez necessitemos de um exame específico, proposto pelo CFP, que contribua para aferir a qualidade dessa formação profissional. Afinal de contas, os múltiplos e emergentes desafios no campo da saúde mental exigem que os profissionais que trabalham nessa área estejam à altura deles.

Mas e quanto à pergunta que dá título a este artigo?

Em face do contexto atual, podemos dizer que a Psicologia é a nova Medicina?

Absolutamente não!

Não é o simples crescimento da oferta e da procura por essa graduação que fará dela a nova Medicina. A Psicologia só galgará esse status quando, além de seu crescimento quantitativo, for contemplada com uma valorização social à altura de sua relevância. Isso tem a ver com jornadas dignas de trabalho, com o reconhecimento de seu devido valor pelos entes públicos e pela sociedade e com remunerações justas.

Isto é, ainda temos um longo caminho a trilhar nessa direção.

***

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Para aprofundamento

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A formação em psicologia: perspectiva histórica

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Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
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