Em julho de 2024 iniciei uma jornada de trabalho como psicólogo no Caps-AD Pedro C. S. Sobrinho, no município de Rio Largo, zona metropolitana de Maceió-AL. Essa experiência se estendeu até dezembro de 2025, totalizando 18 meses. Nesse tempo, desenvolvi as funções de técnico de referência (TR) e de coordenador técnico dessa unidade de saúde. Tratou-se de um contrato de trabalho inicialmente de 20 horas semanais, que posteriormente foi estendido para 40 horas.
O município de Rio Largo é o terceiro maior do estado de Alagoas, com cerca de 95.000 habitantes, e possui dois equipamentos que atendem especificamente às demandas de saúde mental: o Caps-AD Pedro C. S. Sobrinho e o Caps Edmilson Vasconcelos, presente no município há mais de 20 anos. Além destes, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) conta com 100% de cobertura na atenção básica, um hospital geral, uma equipe do Consultório na Rua, além dos pontos presentes nas próprias comunidades, como ONGs, escolas, associações de bairro etc.
Mais do que apresentar um relato objetivo, eu gostaria de fazer algumas reflexões a partir do lugar de psicólogo inserido em uma política pública de saúde mental. Sabemos que essas reflexões partem de uma realidade concreta e circunscrita a seu contexto (dimensão particular). Mesmo assim, compreendemos que ela pode nos oferecer elementos para a generalização (dimensão universal).
Os desafios de nossa relação com o álcool
O primeiro aspecto dessa experiência de trabalho que eu gostaria de destacar foi a centralidade do uso abusivo de álcool pelos usuários do serviço. Começo com esse ponto porque os Caps-AD – conforme a política de saúde mental vigente no Brasil (especialmente a portaria de nº 3.088/2011) – devem acolher o sofrimento decorrente do uso abusivo de todas as substâncias. No entanto, em nossa experiência de trabalho o álcool foi a substância mais prevalente. De nosso ponto de vista isso nos indica algumas questões.
A primeira delas tem a ver com nossa relação social com essa substância. Em sua representação social, o álcool não chega sequer a ser uma droga, embora efetivamente o seja. Certamente isso está associado à legalidade do seu consumo, pois ocorre o mesmo com o cigarro de nicotina. Além disso, há um outro conjunto de representações sobre o álcool que produz efeitos muito adversos. Por exemplo, a representação que vincula o uso excessivo de álcool à força, à virilidade, cultivadas por certo tipo de masculinidade (tópico posterior).
Outra questão tem a ver com a necessidade urgente de levarmos mais a sério, como sociedade, os macro-efeitos que o alcoolismo acarreta. Acredito que ainda estamos muito longe disso. Aqui, entendo que precisaríamos seguir os mesmos direcionamentos que demos ao consumo do cigarro de nicotina. Seguindo as diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS), desde a década de 1990 o Brasil iniciou um conjunto de ações que acabou por restringir enormemente o consumo de cigarros de nicotina no país. A primeira delas foi a promulgação da Lei Antifumo (9.294/1996), que restringiu a publicidade desse produto e estabeleceu a proibição do hábito de fumar em lugares coletivos fechados.
Alguns anos depois, a Lei 12.546/2011 aperfeiçoou a Lei Antifumo, proibindo a propaganda comercial de cigarros e outros produtos de tabaco em todo o território nacional, com exceção para os locais de venda. De lá para cá, o hábito de fumar mudou suas feições, e o que antes era visto como um sinal de “maturidade” e até de “elegância”, passou a ser visto como algo anacrônico, negativo e prejudicial. Não obstante, nada disso fez desaparecer o hábito, e atualmente observa-se um retorno de sua maior frequência, inclusive entre adolescentes e jovens.
Como sociedade, ainda não fizemos nada parecido em relação ao álcool. É verdade que sua publicidade mudou, especialmente quando pensamos na objetificação do corpo feminino tão presentes nas propagandas de cerveja. Mas apesar desse importante avanço no campo do gênero, essa publicidade segue viva, reformada para ser politicamente correta, e hoje soma-se ao oceano de interpelações cotidianas encontradas na redes sociais, onde o álcool é amplamente glamourizado.

Para ficarmos com uma única dimensão dos efeitos do alcoolismo sobre o corpo social, tomemos os dados que demonstram como esse problema sobrecarrega o Sistema Único de Saúde (SUS). Em termos gerais, o alcoolismo tem ocasionado altos custos financeiros, elevada mortalidade e sobrecarga para os serviços públicos que acolhem essa demanda. Por ano, essa doença acarreta atualmente o custo de R$ 18,8 bilhões ao SUS e à Previdência Social. Somente os atendimentos ambulatoriais e as internações (média e alta complexidades) relacionadas ao alcoolismo geram para o SUS um custo anual de R$ 1 bilhão.
Recentemente a OMS modificou seu entendimento sobre os riscos do alcoolismo, passando a afirmar que não há nenhuma dose segura de álcool. Por essa e pelas demais razões acima resumidas, essa é uma conversa que não pode mais ser adiada.
Alcoolismo e masculinidades
Um segundo ponto que eu gostaria de destacar da minha experiência no Caps AD em Rio Largo tem a ver com questões de gênero. Rapidamente fui me dando conta de que o público atendido por aquele serviço era majoritariamente masculino (acima de 90%). Como sabemos, em geral o alcoolismo é de fato um problema maior entre os homens. Entretanto, é preciso questionarmos: por quê? A desconfiança relacionada com a determinação cultural ligada ao gênero, e a um certo tipo de masculinidade, foi se confirmando a cada atendimento.
Nas entrevistas de acolhimento, nos atendimentos individuais, nos grupos terapêuticos, nas visitas domiciliares, pude me dar conta de padrões recorrentes entre os usuários. Primeiro, a maior parte deles iniciou seu consumo de álcool muito cedo, ainda na infância ou na adolescência. Segundo, quase sempre uma figura masculina foi a responsável por introduzi-los nesse consumo. A figura do pai tem um destaque nesses relatos, sendo seguida pela do irmão mais velho, ou pela do amigo próximo. A predominância da influência paterna denuncia um dilema que quase sempre é transgeracional, em que filhos reproduzem ciclos disfuncionais dos seus pais.
No contexto específico do município de Rio Largo, um certo tipo de masculinidade funciona como um determinante cultural que é ponto de partida para o alcoolismo. A princípio, bebe-se para seguir os passos do pai, ou do irmão mais velho, ou do amigo importante. Em seguida, bebe-se para seguir a média em que muitos outros homens também bebem, ou seja, bebe-se para reforçar a autoidentificação masculina. Finalmente, bebe-se por necessidades neurofisiológicas. Alterada pelo consumo excessivo do álcool, a neurofisiologia é afetada pela dependência química e pela síndrome de abstinência.
Trazemos esse ponto para a discussão com o objetivo de argumentar acerca da importância dos estudos de gênero, e como eles estão interseccionados com muitos outros setores de nossa vida cultural. Os estudos de gênero não podem ser estereotipados como uma “militância contra o conservadorismo”. Para além desse recorrente espantalho, eles devem ser valorizados a partir de sua capacidade de desnaturalizar certos padrões culturais geradores de sofrimentos coletivos, como no caso da saúde pública.
Desinstitucionalização
O terceiro aspecto dessa experiência profissional que eu gostaria de destacar tem a ver com o que, no âmbito da Reforma Psiquiátrica, chamamos de desinstitucionalização. Esse é um termo muito caro à luta antimanicomial, pois se trata de um de seus objetivos mais complexos.
Desinstitucionalizar é mais do que fechar hospitais psiquiátricos e cuidar de portas abertas. Desinstitucionalizar é contribuir para a formação de subjetividades autônomas, que entendam os serviços de saúde como parte importante dos seus fatores de proteção, sem que se estabeleça com eles uma relação de estrita dependência. Mais do que tirar as pessoas das instituições, desinstitucionalizar é tirar as instituições de dentro das pessoas. É contribuir com o incentivo de formas eficazes de autocuidado e de autodeterminação. O usuário se serve da instituição, mas não depende dela. Ele se fortalece com o uso que faz da instituição, e se fortalece com seu trânsito por outros pontos do seu território.
Nossa experiência no Caps AD Pedro C. S. Sobrinho foi nos indicando o quanto ainda estamos longe desse ideal. Temos atrás de nós uma longa história de instituições psiquiátricas que seriam facilmente identificadas com aquilo que Erving Goffman chamou de instituições totais. Segundo esse autor, uma instituição total é aquela que, sob a prerrogativa do cuidado, produz o sequestro e o apagamento da pessoa e da sua individualidade. Goffman explorou esse tema em um importante livro chamado Manicômios, prisões e conventos. Nossa hipótese é a de que a memória social dessas instituições produz efeitos sobre as subjetividades, fazendo com que os usuários nunca deixem de percebê-las como referências para o seu tratamento.
Infelizmente, o campo da saúde mental continua habitado por instituições totais, dentre as quais muitas clínicas de internação involuntária e comunidades religiosas ditas “terapêuticas”. Em nosso trabalho, fomos nos dando conta de que uma parte dos usuários que atendemos no Caps AD já tinha experiências de internação nessas instituições. Como efeito disso, muitas falas, especialmente nos grupos terapêuticos, comparavam o trabalho do Caps ao trabalho realizado naqueles espaços. Além disso, as internações continuavam a ser requeridas como um expediente para as mais variadas situações, e até mesmo como fuga de conflitos familiares.
Nesse contexto as internações são um expediente comum, e têm seu devido amparo na legislação (Lei 10.216/2001). Contudo, há duas questões que são inegociáveis nesse quesito: (1) as internações devem ser acionadas apenas nos casos oportunos, quando a demanda excede as possibilidades técnicas dos serviços da atenção de média complexidade (Caps AD); (2) nestas situações, elas devem ocorrer em leitos psiquiátricos disponíveis nos hospitais gerais (alta complexidade), visando a estabilização dos sintomas e o retorno do usuário ao cuidado de base comunitária e territorial.
Em alguns espaços de discussão muito se fala na banalização das internações psiquiátricas, principalmente quando o assunto é a dependência química. Em nosso trabalho do Caps AD Pedro C. S. Sobrinho pudemos notar que essa banalização é generalizada, de modo que os próprios usuários concebem as internações como um recurso banal. Dessa forma, desinstitucionalizar é seguir preconizando o tratamento em liberdade e a qualificação das subjetividades, o que, nestes casos, tem a ver com sua autonomia e autocuidado.
Para aprofundar o tema
Políticas Públicas de Saúde Mental no Brasil
Gênero, mascunilidades e alcoolismo: Brasil no início do século XX
