O Transtorno da Personalidade Esquizotípica (TP Esquizotípica), apesar de ser uma condição muito complexa e comprometedora da qualidade de vida dos sujeitos, é ao mesmo tempo um dos diagnósticos menos frequentes dentro os transtornos da personalidade. Diferente do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V-TR), na atual versão da Classificação Internacional das Doenças (CID-11), o padrão esquizotípico está localizado entre os transtornos psicóticos. Essas nuances conceituais explicam um pouco o baixo número de diagnósticos dessa condição.
Antes de seguirmos com os detalhes sobre esse padrão de personalidade, vejamos um pouco da história de sua construção conceitual. Foi o trabalho de Eugen Bleuler (1857-1939) que lançou as sementes para a construção da noção de esquizotipia. Embora não tenha cunhado esse termo, Bleuler acreditava que certos traços da esquizofrenia poderiam ser encontrados de modo difuso em pessoas sem esse diagnóstico.
Algumas décadas mais tarde, o psicanalista húngaro Sandor Rado (1899-1981) cunharia o termo schizotype, com o qual ele se referia aos padrões de funcionamento pessoal que vulnerabilizavam os sujeitos à esquizofrenia. Rado se referia à esquizotipia como um “fenótipo latente”, ou seja, como uma espécie de condição pré-mórbida para os transtornos psicóticos.
Uma tentativa de despatologização da esquizotipia foi realizada pelo psicólogo britânico Gordon Claridge (1932-2021). Retomando a discussão iniciada por Eugen Bleuler, Claridge inseriu a esquizotipia em uma perspectiva dimensional, defendendo que esses traços estão disseminados em todas as pessoas, existindo em diferentes magnitudes, sem que se constituam necessariamente como expressões patológicas.
Mas, o que é esquizotipia?
Esse padrão de personalidade é bastante complexo, pois reúne uma série de características que podem estar distribuídas de modo muito peculiar entre os diferentes sujeitos que vivenciam essa condição. Do ponto de vista cognitivo, os padrões esquizotípicos são marcados pela tendência ao pensamento mágico, por crenças peculiares de natureza espiritualista e simbólica, e pelas chamadas ideias de referência, quando o indivíduo acredita que os fatos da realidade têm alguma relação com ele mesmo.
Nos padrões esquizotípicos também estão presentes experiências perceptuais muito próximas das alucinações, responsáveis pelo agravamento da condição de sofrimento. Em termos de tendências de comportamento, as pessoas esquizotípicas comungam com o padrão esquizoide o isolamento social autoimposto e o distanciamento afetivo das pessoas, o que as vulnerabiliza ao surgimento de sintomas depressivos.
O TP Esquizotípica foi formulado pela primeira na terceira versão do DSM, em 1980, e desde então segue inserido no modelo categorial junto aos demais transtornos da personalidade do grupo A (paranoide e esquizoide).
No DSM-V-TR, esse padrão de personalidade é descrito nos seguintes termos:
Um padrão difuso de déficits sociais interpessoais marcado por desconforto agudo e capacidade reduzida para relacionamentos íntimos, além de distorções cognitivas ou perceptivas e comportamento excêntrico, que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos.
Como podemos concluir dessa definição, de acordo com o DSM-V-TR o TP Esquizotípica possui três grandes eixos definidores:
(1) prejuízos sociais decorrentes da incapacidade de cultivar relações de proximidade com as demais pessoas;
(2) dilemas de natureza cognitiva como pensamentos e percepções distorcidos;
(3) e comportamento excêntrico, ou seja, hábitos de comportamento muito diferentes daqueles estimados pela cultura do sujeito.
Dentre os comportamentos excêntricos (que podem ser muito variados), vestir-se de modo incomum, acentuadamente diferente e peculiar, é um dos comportamentos mais frequentes na esquizotipia.
Esses grandes eixos dão origem a várias características diagnósticas, que o DSM-V-TR organiza em nove tópicos, dos quais os sujeitos precisam cumprir quarto ou mais. São eles:
- Ideias de referência (excluindo delírios de referência).
- Crenças estranhas ou pensamento mágico que influenciam o comportamento e são inconsistentes com as normas subculturais (p. ex. superstições, crença em clarividência, telepatia ou “sexto sentido”; em crianças e adolescentes, fantasias ou preocupações bizarras).
- Experiências perceptivas incomuns, incluindo ilusões corporais.
- Pensamento e discurso estranhos (p. ex. vago, circunstancial, metafórico, excessivamente elaborado ou estereotipado).
- Desconfiança ou ideação paranoide.
- Afeto inadequado ou constrito.
- Comportamento ou aparência estranha, excêntrica ou peculiar.
- Ausência de amigos próximos ou confidentes que não sejam parentes de primeiro grau.
- Ansiedade social excessiva que não diminui com o convívio e que tende a estar associada mais a temores paranoides do que a julgamentos negativos sobre si mesmo.
Como podemos depreender dessa lista, estamos mesmo diante de padrões de personalidade muito desafiadores, produtores de intenso sofrimento subjetivo e de prejuízos funcionais em diversas áreas da vida. Poderíamos arriscar a opinião de que o TP Esquizotípica coloca os sujeitos em uma espécie de fronteira entre os padrões esquizoides e a esquizofrenia.
A literatura sobre o tema indica que é comum que o TP Esquizotípica surja como condição pré-mórbida para a esquizofrenia. Tendo em vista que existem poucos diagnósticos de TP Esquizotípica, podemos deduzir que muitos pacientes esquizofrênicos performaram padrões esquizotípicos que foram negligenciados.
Como sabemos sobre todos os transtornos mentais, o TP Esquizotípica tem etiologia multifatorial, embora se acentue sempre a força da determinação biológica nesses casos.
Ter parentes de primeiro grau com algum transtorno psicótico costuma ser apresentado como um importante fator de risco para o desenvolvimento dos padrões esquizotípicos. Apesar disso, os fatores de natureza psicossocial presentes nas fases críticas da formação do indivíduo não devem ser desprezados. Aqui, deve-se ressaltar os estilos de parentalidade distantes e negligentes, assim como o convívio com parentes com diagnóstico de psicose.
Do que dissemos até aqui, conclui-se que as intervenções precoces são decisivas para essas pessoas. Ao proporcionar-lhes tratamento qualificado, as intervenções terapêuticas contribuem para atenuar a possibilidade de evolução para os transtornos psicóticos em etapas mais avançadas da vida.

Em função da complexidade que marca o TP Esquizotípica, essas intervenções precisam ser obrigatoriamente interprofissionais, incluindo o controle farmacológico dos sintomas psiquiátricos e as intervenções psicoterapêuticas que atuam para melhorar a performance psicossocial dos sujeitos.
Apesar de possuir características diagnósticas listadas pelo DSM-V-TR, as pessoas com TP Esquizotípica são muito diferentes entre si, e não existem duas experiências iguais nessa área. Entretanto, se pudéssemos desenhar as prioridades terapêuticas gerais relacionadas ao tratamento desses pacientes, daríamos que entre elas devem estar:
- A identificação de sintomas secundários, como os depressivos e os de ansiedade patológica;
- A redução dos níveis de ansiedade social;
- O controle de possíveis ideações paranoides;
- O investimento na melhora das competências sociais e ocupacionais;
- A prevenção da evolução para os transtornos psicóticos.
Ter uma prevalência reduzida no seio da população não deve nos levar a pensar que TP Esquizotípica tem menor importância. Como sabemos, os transtornos mentais tendem a ser subnotificados, e apesar da enorme relevância dos dados epidemiológicos, eles nunca são um reflexo exato da realidade. Ou seja, as pessoas com padrões esquizotípicos existem e estão aí. Seu modo de existir no mundo carrega muita dor e muito sofrimento. Por isso, fazemos muito bem em avançarmos em conhecimento e em nos atualizarmos para oferecer intervenções eficazes e que possam elevar a qualidade de vida de potenciais pacientes com padrões esquizotípicos.
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Para aprofundamento:
Transtorno da Personalidade Esquizoide: disfunção comportamental ou patologização da solitude?
Avaliação psicológica do Transtorno da Personalidade Esquizotípica: um estudo de caso
