Contra o supremacismo epistemológico em Psicologia

5 min

ENVIAR

A ideia de que existem abordagens da Psicologia mais científicas do que outras constitui um desserviço a esse campo. A militância em torno dessa concepção tem muito mais relação com disputas de mercado do que com questões epistemológicas. Ela só pode prosperar em um contexto no qual a saúde mental foi transformada, antes de tudo, em um grande mercado de serviços. Apesar disso, a evidência irrefutável da história da Psicologia é a seguinte: a força desse campo reside justamente em sua diversidade teórica e metodológica.

O que se observa atualmente entre representantes de determinadas abordagens teóricas da Psicologia pode ser compreendido como uma forma de supremacismo epistemológico. Exalta-se a própria abordagem como “mais científica” ou como “baseada em evidências”, enquanto se diminui ou mesmo se anula o valor das demais. Nessa lógica, todos perdem: a Psicologia, enquanto ciência e profissão, e a própria sociedade.

É importante destacar que essa postura está circunscrita ao nosso tempo, pois esteve ausente entre os formuladores das grandes abordagens da Psicologia. No século XX, período em que ainda não existia um mercado de saúde mental consolidado, o principal ideal dessas abordagens era promover a adaptação e o ajustamento do indivíduo à sociedade. Embora hoje possamos criticar esse ideário, ele não chegou a ensejar conflitos sistemáticos entre as diferentes orientações teóricas da Psicologia.

Outro aspecto importante é que mesmo as abordagens mais vinculadas ao humanismo, à fenomenologia e ao existencialismo – isto é, abordagens menos submetidas à pressão dos ideais da ciência moderna – não podem ser consideradas menos rigorosas, como se fossem meras “aventuras epistemológicas”.

Vejamos um exemplo.

À medida que ampliava o corpo teórico e as intervenções desenvolvidas pela Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), Carl Rogers fazia questão de submeter os resultados desse trabalho ao teste das evidências. Especialmente nas primeiras décadas de sua trajetória, quando a psicoterapia constituía sua principal atividade, Rogers empenhou-se cuidadosamente em demonstrar que as hipóteses fundamentais de sua teoria encontravam respaldo na experiência empírica.

O conjunto de hipóteses em questão dizia respeito às possibilidades de mudança da personalidade por meio do trabalho psicoterapêutico. Elas podem ser resumidas nos seguintes pontos:

  1. A aceitação do cliente pelo terapeuta conduz a uma maior aceitação de si próprio por parte do cliente.
  2. Quanto mais o terapeuta apercebe o cliente como uma pessoa, e não como um objeto, tanto mais o cliente se apreende a si mesmo como uma pessoa, e não como um objeto.
  3. Ao longo do tratamento terapêutico, ocorre no cliente um tipo de descoberta de si mesmo, vivencial e eficaz (Rogers, 2001, p. 236).

Em outros termos, essas hipóteses remetem às chamadas condições facilitadoras, promovidas pelo terapeuta, que constituem condições capazes de potencializar o crescimento, o amadurecimento e o desenvolvimento pessoal dos clientes.

Para testá-las, Rogers utilizou métodos científicos variados, alguns deles absolutamente inovadores para sua época. Foi, por exemplo, o primeiro psicólogo a gravar sessões de psicoterapia como forma de produzir dados empíricos passíveis de análise. Antes disso, o registro dos casos clínicos dependia exclusivamente de anotações realizadas durante as sessões, procedimento bastante suscetível a vieses e limitações do observador.

Além disso, Rogers incorporou ao seu trabalho de pesquisa testes, escalas e inventários já disponíveis nas décadas de 1950 e 1960. Com esses instrumentos, realizou comparações que lhe permitiram compreender o estado do cliente em diferentes momentos do processo terapêutico e, consequentemente, avaliar a eficácia e os alcances de suas intervenções.

Apesar das constantes referências a filósofos como Sören Kierkegaard (1813-1855), Martin Buber (1878-1965) e outros, Rogers passou a compreender a si mesmo como um cientista em busca de uma teoria acerca das “leis gerais” que regem o funcionamento da personalidade humana. A leitura de sua obra evidencia que seu diálogo com a pesquisa científica de sua época – demonstrado pela extensa bibliografia utilizada em sua produção acadêmica – foi muito mais intenso do que seu interesse pela tradição filosófica.

Em síntese, pode-se afirmar que o desenvolvimento inicial da teoria rogeriana ocorreu com base em um intenso e contínuo esforço metodológico de formulação e testagem de hipóteses.

Para reforçar esse argumento, vale destacar que, assim como ocorreu com diversas outras abordagens da Psicologia, também as abordagens humanistas surgiram e se desenvolveram em ambientes universitários. No caso da ACP, como afirma o próprio Carl Rogers, isso fez com que essa teoria estivesse, desde o início, submetida ao escrutínio crítico da comunidade acadêmica e ao permanente processo de revisão por pares.

Assim escreve Rogers, em um texto de 1960:

A terapia centrada no cliente desenvolveu-se sempre no contexto das instituições universitárias. Isso implicou estar exposto à crítica construtiva dos colegas, exatamente da mesma maneira como as novas perspectivas abertas na química, na biologia e na genética estão submetidas a uma apreciação crítica. A atmosfera acadêmica significou sobretudo que a teoria e a técnica eram acessíveis à curiosidade entusiasmada dos jovens. Os estudantes universitários interrogam e criticam; sugerem formulações alternativas; empreendem investigações experimentais para confirmar ou invalidar as diversas hipóteses teóricas. Isso ajudou a manter a orientação terapêutica centrada no cliente como uma perspectiva aberta à autocrítica, em vez de torná-la um ponto de vista dogmático. Foram essas as razões que permitiram à referida orientação terapêutica desenvolver-se através da investigação científica (Rogers, 2001, p. 283).

Com base nesses fatos, podemos concluir que a ACP é uma abordagem “baseada em evidências”? Para responder afirmativamente a essa pergunta, seria necessário continuar submetendo os resultados de suas intervenções ao teste de hipóteses, utilizando os recursos metodológicos atualmente disponíveis. Contudo, é possível afirmar, com segurança, que se trata de uma abordagem que nasceu e se consolidou apoiada no rigor dos métodos científicos próprios da Psicologia de sua época.

Com esse exemplo, pretendemos sustentar que nenhuma orientação teórica em Psicologia – e isso inclui aquilo que se convencionou chamar de “prática baseada em evidências” – necessita recorrer ao supremacismo epistemológico. A emergente Psicologia Baseada em Evidências (PBE) não inventou o rigor científico, tampouco detém seu monopólio. O compromisso com a seriedade metodológica e com o rigor científico possui uma longa trajetória no interior das práticas psicológicas, e esse legado precisa ser devidamente reconhecido e valorizado.

Para aprofundamento

Psicólogos precisam aderir a uma abordagem teórica?

A prática clínica baseada em evidências: parte III – avaliação crítica das informações de pesquisas clínicas

Picture of Paulo Nascimento

Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
5 1 Vote
Article Rating
Inscrever-se
Receber notificações
guest
0 Comments
Mais antigos
Mais recentes Mais votado

SOBRE NÓS

Se você é psicólogo ou estudante de psicologia, trazemos boas novas: A Serpsi foi feita pra você! Somos uma plataforma de streaming criada pra você dar um play na sua carreira, são + de 40 cursos com certificado incluso, conteúdo exclusivo e atualizado semanalmente.

EM DESTAQUE

CATEGORIAS

siga a ser psi

Ser Psicólogo LTDA – 37.851.500/0001-47
Todos os direitos reservados.