Desastres, danos imateriais e saúde mental: reflexões a partir da Venezuela

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Enquanto a Copa do Mundo de futebol da FIFA arrebanha a atenção do mundo, infelizmente os venezuelanos choram em razão do pior terremoto da história de seu país.

No momento do lançamento deste artigo, o número estimado de mortes era de 1.450 pessoas, com 3.150 feridos e outras 12.721 desalojadas. Entre as regiões mais afetadas estão o Estado de La Guaira, a capital Caracas, o Estado de Yaracury e outras localidades. Superando o terremoto de 1967, este é o mais letal da história daquele país.

De acordo com a terminologia científica, é necessário distinguir alguns conceitos, principalmente os de emergência e desastre. Falamos em emergência quando a ocorrência pode ser manejada pelos recursos disponíveis na própria comunidade. Já no caso dos desastres, os impactos são tão devastadores que a própria comunidade não dispõe de recursos suficientes para o seu enfrentamento, tornando necessárias intervenções externas.

De acordo com a Cruz Vermelha Internacional, os eventos ocorridos na Venezuela podem ser definidos como um desastre natural de origem geofísica, com importantes consequências psicossociais.

Naquele país, a situação se agrava em função da insuficiência de maquinário para os resgates, o que infelizmente reduz as possibilidades de encontrar sobreviventes à medida que o tempo passa. Ainda assim, equipes de suporte humanitário de diversos países, incluindo o Brasil, têm se deslocado para os locais atingidos. Até o momento da publicação deste artigo, 13 brasileiros haviam sido resgatados e repatriados.

Sempre que um evento dessa magnitude acontece, múltiplas dimensões da vida social são afetadas.

A dimensão material – expressa na mortalidade, na quantidade de pessoas feridas e no número de desabrigados – é a mais visível. Por razões óbvias, ela representa uma prioridade quando se trata de pensar o manejo dos efeitos de qualquer desastre. Entretanto, além de prioritária, durante muito tempo a dimensão material foi considerada como o único foco de atenção no período pós-desastre.

Nas últimas décadas, esforços da Psicologia e de outras áreas das ciências humanas (Sociologia, Serviço Social, Antropologia etc.) têm sido empreendidos para dar visibilidade aos efeitos “imateriais” dos desastres, entre eles os impactos sobre a saúde mental das populações atingidas.

Contudo, quando falamos em saúde mental no contexto dos desastres, precisamos ir além da psicopatologia tradicional.

É evidente pensarmos que uma pessoa resgatada dos escombros de um terremoto, por exemplo, estará vulnerável a diferentes formas de sofrimento psíquico. Entre esses impactos, podemos destacar o estresse pós-traumático e o luto em sua dimensão aguda como alguns dos mais frequentes. Quadros depressivos também costumam ser previsíveis nessas situações, demandando atenção especializada.

De acordo com o Comitê Permanente Interagências (IASC – Inter-Agency Standing Committee) da Organização das Nações Unidas (ONU), sempre que um desastre ocorre, cerca de 5% da população atingida demandará acompanhamento especializado em diferentes áreas da vida durante a fase de reconstrução. Isso também se aplica aos cuidados em saúde mental, cujos efeitos podem se prolongar por períodos indeterminados.

Entretanto, quando falamos das intervenções em saúde mental nos processos de reconstrução pós-desastre, novamente precisamos ultrapassar os limites da psicopatologia tradicional.

Isso se justifica porque, nessas situações, encontramos um conjunto de outros impactos sobre os quais a psicopatologia tradicional pouco tem a dizer. Por exemplo: como os impactos de um desastre se distribuem entre os diferentes grupos sociais? Como eles atingem as distintas classes socioeconômicas? Como afetam a vida das minorias sociais? Que efeitos produzem entre os diferentes gêneros?

Ao formular essas perguntas, afirmamos que, apesar do sofrimento generalizado que um desastre pode produzir, ele não atinge o tecido social de maneira homogênea, mas produz efeitos específicos sobre grupos sociais específicos.

Para ficarmos apenas com um recorte, os desastres costumam ser mais lesivos para as mulheres.

Muitos pesquisadores têm se dedicado ao estudo das relações entre desastres e questões de gênero, e grande parte dos conhecimentos produzidos nessa área confirma que a fase de reconstrução de um desastre costuma impor desafios maiores às mulheres, frequentemente vistas como “cuidadoras naturais” de seus núcleos familiares. Além disso, são elas que, em alojamentos destinados aos desabrigados, costumam enfrentar situações de assédio ou mesmo violência sexual.

Outra dimensão imaterial relacionada aos desastres diz respeito aos efeitos silenciosos da desterritorialização. Com esse termo, referimo-nos ao abandono compulsório do território anteriormente habitado.

Como sabemos a partir dos trabalhos de Milton Santos, a noção de território denota muito mais do que um espaço físico ocupado. Habitar um território significa estabelecer vínculos e relações fundamentais para a vida cotidiana. É no território que os indivíduos constroem raízes com a história e com a cultura, elementos essenciais para a produção de suas identidades.

É por isso que se diz que todo desastre produz desenraizamento, e os processos de desterritorialização e de desenraizamento sempre produzem efeitos profundos sobre a saúde mental. Ou seja, aquilo que é nomeado pela psicopatologia tradicional como sintoma está relacionado a processos que essa mesma psicopatologia frequentemente não consegue apreender.

Os processos de realocação pós-desastre são sempre difíceis e repletos de desafios. Além das perdas humanas e materiais, da dor do luto e de outros sofrimentos emocionais, a dispersão geográfica afasta familiares, amigos, vizinhos e outros elementos da rede de apoio existente no território anteriormente habitado – comunidades religiosas, associações de bairro, espaços de lazer, serviços socioassistenciais públicos e privados etc.

Por essas razões, as intervenções em saúde mental não podem se reduzir à remediação dos sintomas psiquiátricos daqueles que foram atingidos por um desastre.

Mais recentemente, temos falado em danos extrapatrimoniais para tentar dar conta dessa dimensão. E, como todo dano, também esses gritam por reparação. Mas o que significa reparar danos extrapatrimoniais e imateriais em contextos pós-desastre?

Após a ocorrência de um desastre, é impossível retornar às condições anteriores existentes naquele território. Portanto, reparar não significa restaurar uma realidade que deixou de existir e que não pode ser reconstruída integralmente. Por exemplo, como retornar às mesmas condições anteriores quando parentes queridos perderam suas vidas? Enquanto os danos materiais podem ser mensurados e indenizados, os danos afetivos e imateriais são, literalmente, irreparáveis.

Assim, em lugar do retorno à situação anterior, a reparação diz respeito a um conjunto de ações que contribuam para a ampliação do senso de justiça, a construção de novas redes comunitárias e a mitigação da impotência, tão presente nessas situações.

Tradicionalmente, as ações de saúde mental em contextos pós-desastre tiveram como foco as pessoas atingidas em sua dimensão individual. Intervir, nessas situações, significava acolher pessoas que apresentavam sintomas psiquiátricos decorrentes dos desastres. No contexto da reparação dos danos imateriais, entretanto, as intervenções passam a privilegiar ações coletivas e de caráter comunitário. É por isso que temos falado em uma saúde mental comunitária nesses contextos.

Mais do que atingirem indivíduos isoladamente, os desastres afetam a existência e o funcionamento das comunidades. Assim sendo, as ações de resposta também precisam assumir um caráter comunitário, a fim de responder melhor ao desafio da reparação.

Nesse modelo, ultrapassa-se a ideia tradicional de que somente especialistas são capazes de exercer o cuidado. Avança-se para a concepção de que a própria sociedade organizada pode mobilizar recursos para esse fim. Isso não significa que especialistas deixem de ser necessários, incluindo psicólogas e psicólogos. O que a perspectiva da reparação dos danos imateriais propõe é um redimensionamento de sua atuação.

Se antes sua atenção estava voltada principalmente para a remediação dos sintomas psiquiátricos das pessoas atingidas, agora sua função passa a incluir o assessoramento de projetos e ações comunitárias organizadas pela própria sociedade civil e por suas representações, visando à promoção da reparação.

***

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Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
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