A Doença de Parkinson é uma enfermidade neurodegenerativa e progressiva que compromete o controle dos movimentos voluntários, afetando milhões de pessoas em todo o mundo. Descrita pela primeira vez em 1817 por James Parkinson como paralisia agitante (shaking palsy), a doença é marcada pela deficiência de dopamina no sistema nervoso central, especialmente devido à perda dos neurônios dopaminérgicos da substância negra.
O que é a Doença de Parkinson
A doença atinge cerca de 1% das pessoas acima de 65 anos e tem seu pico de incidência por volta dos 60 anos. Estima-se que mais de 1 milhão de pessoas vivam com Parkinson apenas nos Estados Unidos, com cerca de 50 mil novos casos a cada ano.
Os sintomas clássicos formam a chamada tríade parkinsoniana:
- Tremor em repouso
- Rigidez muscular
- Bradicinesia (lentidão dos movimentos)
Outros sinais incluem marcha parkinsoniana, fala monótona, escrita micrográfica, além de distúrbios vegetativos, depressão e, em alguns casos, demência. Curiosamente, o tremor tende a diminuir durante a ação e reaparecer no repouso, o que ajuda a diferenciá-lo de outros tipos de tremores.
Adesão terapêutica ao uso de antiparkinsonianos em pessoas idosas e
seus fatores associados: revisão integrativa
Causas e Fatores de Risco
A principal causa da Doença de Parkinson é a redução da dopamina no cérebro, decorrente da degeneração neuronal. Entre os fatores etiopatogênicos destacam-se:
- Envelhecimento natural, com início dos sintomas geralmente entre os 55 e 65 anos.
- Fatores genéticos, que podem predispor indivíduos à doença.
- Exposição ambiental, especialmente ao uso de agrotóxicos e à proximidade com indústrias químicas, metalúrgicas e siderúrgicas.
Além disso, existem casos de parkinsonismo induzido por drogas, em que o uso prolongado de neurolépticos (antipsicóticos), antieméticos como a metoclopramida e vasodilatadores como cinarizina e flunarizina pode desencadear sintomas semelhantes ao Parkinson.
Neuroplasticidade

Tratamento Farmacológico da Doença de Parkinson
O tratamento da Doença de Parkinson visa restaurar o equilíbrio entre dopamina e acetilcolina no sistema nervoso central, reduzindo os sintomas motores e melhorando a qualidade de vida. A base terapêutica é o uso de fármacos antiparkinsonianos, que atuam de diferentes maneiras sobre a neurotransmissão dopaminérgica.
1. Levodopa: o padrão-ouro do tratamento
Descoberta em 1967, a Levodopa (L-Dopa) é o medicamento de primeira linha no tratamento da doença. Ela atua como precursora da dopamina, aumentando sua disponibilidade no cérebro e melhorando os sintomas motores.
Entretanto, apenas 1% da dose administrada consegue atravessar a barreira hematoencefálica (BHE), sendo o restante metabolizado perifericamente. Por isso, é comum associar a Levodopa a inibidores da dopa-descarboxilase periférica, como Carbidopa e Benserazida, que reduzem os efeitos colaterais e potencializam a ação central.
Farmacocinética da Levodopa
- Absorvida no trato gastrointestinal entre 30 minutos e 2 horas;
- Interfere com alimentos ricos em aminoácidos ou vitamina B6;
- Deve ser ingerida uma hora antes das refeições;
- Tem meia-vida curta, exigindo 4 a 6 doses diárias.
Os medicamentos mais conhecidos são Prolopa®, Sinemet®, Cronomet® e Levocarb®.
2. Selegilina: o inibidor da MAO-B
A Selegilina é um inibidor seletivo da enzima MAO-B, responsável pela degradação da dopamina. Ao impedir essa ação, a Selegilina prolonga a disponibilidade da dopamina no cérebro, sendo usada em combinação com a Levodopa.
Além de apresentar bons resultados clínicos, não causa a famosa “reação do queijo” (crise hipertensiva associada a alimentos ricos em tiramina). Seus principais efeitos colaterais incluem cefaleia, insônia e sudorese.
Principais marcas: Niar®, Jumexil®, Elepril® e Deprilan®.
3. Agonistas Dopaminérgicos Diretos
Essas substâncias atuam imitando a dopamina e ativando diretamente os receptores D2. Embora sejam menos potentes que a Levodopa, têm um papel importante como terapia complementar ou alternativa em fases iniciais.
Entre os efeitos adversos, destacam-se náusea, alucinações, confusão mental e alterações cognitivas.
Principais representantes:
- Bromocriptina (Parlodel®)
- Pergolida (Celance®)
- Lisuride (Dopergin®)
4. Amantadina
Originalmente um antiviral, a Amantadina foi descoberta como capaz de aumentar a liberação e síntese de dopamina. Apresenta ação moderada, sendo geralmente utilizada em associação com Levodopa ou anticolinérgicos.
Apesar de reduzir discinesias (movimentos involuntários), sua eficácia diminui com o tempo. Pode causar hipotensão ortostática, confusão e alucinações.
Nome comercial: Mantidan®.
5. Antagonistas Colinérgicos
Esses fármacos atuam bloqueando os efeitos do excesso de acetilcolina, restaurando o equilíbrio dopamina-acetilcolina no sistema nervoso. São mais indicados para pacientes jovens ou casos de parkinsonismo farmacológico.
Entre os principais medicamentos estão:
- Biperideno (Akineton®)
- Trihexifenidil (Artane®)
Os efeitos colaterais incluem boca seca, visão turva, retenção urinária e confusão mental, o que limita seu uso em idosos.
Figuras Históricas com Parkinson
A Doença de Parkinson também afetou figuras notáveis como Muhammad Ali, Salvador Dalí, Michael J. Fox, Papa João Paulo II, Katherine Hepburn e Mao Tsé-Tung. Esses exemplos ajudaram a dar visibilidade à doença, incentivando pesquisas e campanhas de conscientização sobre a importância do diagnóstico e do tratamento precoce.
O tratamento da Doença de Parkinson é um campo em constante evolução. Embora ainda não exista cura, o uso racional dos fármacos antiparkinsonianos, associado ao acompanhamento médico e fisioterapêutico, pode prolongar a autonomia e melhorar significativamente a qualidade de vida do paciente.
A compreensão dos mecanismos de ação da Levodopa, Selegilina, Amantadina e agonistas dopaminérgicos é essencial para profissionais da saúde e estudantes de farmacologia. Quanto mais se compreende o funcionamento desses medicamentos, mais efetivas se tornam as estratégias terapêuticas para o controle da doença.
