O legado de Carl Rogers e o contexto brasileiro na atualidade

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Diferente dos lugares comuns que situam a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) no escopo das famosas “abordagens” da Psicologia, ela não é apenas uma teoria psicoterápica. Ela é uma filosofia cujo objeto são as condições necessárias ao desenvolvimento humano. É desse modo que ela pode subsidiar práticas que transcendem o consultório psicológico, como tentaremos demonstrar.

O amadurecimento pessoal do próprio Rogers foi se traduzindo, ao longo dos anos, na ampliação de suas pretensões pessoais. O que havia começado com a preocupação com a psicoterapia individual, foi se ampliando para preocupações com outros setores da vida social, como a dinâmica familiar, a educação escolar, as organizações, a saúde pública, dentre outros espaços. E em sua culminância a filosofia da ACP estaria mirando as relações internacionais e os destinos da cultura.

À semelhança de aurores como Freud, como Reich, como Skinner, e como outros pensadores importantes desse campo, Rogers também foi um pensador da cultura. Ele esteve sempre atento ao seu contexto, convulsionado por guerras, por tensões internacionais, pela irrupção de formas alternativas de resistência popular e por mutações frenéticas na moralidade pública. Rogers buscou pensar nesses desafios sob o signo das relações humanas. Sua aposta fundamental era a de que a chave para a construção de uma cultura que favorecesse os potenciais humanos estava no investimento sobre a qualidade das relações.

Carl Rogers nos deixou em 1987. É verdade que de lá para cá antigos dilemas como as diferentes formas de violência e a desigualdade social permanecem os mesmos. Mas desde então, em nível global, muita coisa nova aconteceu. Passamos por mudanças paradigmáticas nos campos da economia, da política e da cultura. Vivemos hoje sob a égide da globalização e do pluralismo cultural.

Há poucas décadas vimos nascer a era das interconexões digitais, inventando novas formas de relação. Também vimos o fortalecendo dos identitarismos e suas variadas formas. Finalmente, o mundo atual está diante dos desafios da radicalização ideológica, da desinformação massificada e os dos populismos autoritários que tínhamos a certeza de ter superado.   

Somada a tudo isso temos a sociedade brasileira com sua história, seus traços culturais, suas virtudes e seus dilemas. Como resultado de nossa história colonial e neocolonial, chagas tradicionais como o racismo estrutural, a pobreza extrema, o machismo e a misoginia, o sexismo e a precariedade das políticas de Estado seguem vivos e deixam marcas todos os dias em nosso cotidiano. Isso parece se refletir em nossa saúde mental, visto que temos números muito negativos nesse campo, explicitados na distribuição epidêmica de sofrimentos como a depressão e as formas patológicas da ansiedade.

Onde queremos chegar com essas sumarizações?

Queremos afirmar de modo categórico que a filosofia da ACP pode dar enormes contribuições em face dos desafios contextuais que temos hoje no Brasil. Mas ela não pode ser encarada como uma super-teoria ou como uma panaceia. Longe disso. O papel dessa filosofia é fundamentar uma concepção da pessoa e o lugar das relações no desenvolvimento humano. Daí para frente ela deve entregar o bastão àqueles saberes que melhor nos ajudam a diagnosticar as forças que produzem sofrimento e atrofiam os potenciais dos sujeitos.

Estamos falando de uma filosofia, o que quer dizer que atores pertencentes a outros campos de atividade social podem utilizar igualmente a ACP como base filosófica para sua ação. Por isso o convite de Rogers é amplo, e não se reduz a um único campo de ação.

Em acordo com esse psicólogo, seguimos compreendendo que as relações humanas são um campo sensível ao qual precisamos continuar a nos dedicar. Os dilemas que enfrentamos como sociedade brasileira, sejam os tradicionais ou os emergentes, são todos de natureza relacional. Por sua vez, investir no crescimento da qualidade das relações não é o mesmo que produzir consensos artificiais. Os consensos artificiais são perigosos, pois só podem ser construídos com violência, arbitrariedade e o silenciamento do contraditório.

No Brasil da primeira metade do século XXI, os principais focos problemáticos das relações humanas têm a ver com (1) o modo como tratamos nossa diversidade étnico-racial; (2) com os dilemas das relações de gênero; (3) com as tensões no campo da diversidade sexual; (4) com a radicalização do fosso das disparidades socioeconômicas; (5) e com a transformação da diversidade político-ideológica numa guerra que bloqueia qualquer diálogo. Outra vez, todos esses desafios são relacionais.

Esses são campos que deveriam ser tomados como objetos de trabalho por aqueles que se identificam com a ACP. Seguindo o legado atitudinal do próprio Freud, a tradição psicanalítica, por exemplo, sempre esteve atenta às leituras de conjuntura. Felizmente, temos visto recentemente no Brasil um relativo despertar de outras abordagens, como a Terapia Cognitivo-Comportamental, em direção a temas como o racismo e o sexismo. Nesses esforços busca-se problematizar não somente as questões intrapsíquicas, mas também as interrelacionais e intergrupais, visto que estão todas imbricadas.

Pela natureza de suas proposições, essa é sem dúvida uma vocação da ACP. E o Brasil se apresenta como um laboratório plural e desafiador, em que a necessidade de desenvolvimento humano viceja por todos os lados. Na esteira de Rogers, qualificar as relações é justamente umas das formas de prevenir o colapso civilizacional. Por isso, para finalizar, deixemos a palavra com o nosso principal interlocutor, como forma de encorajamento e inspiração:

“O admirável progresso conseguido pelo homem, não apenas na imensidão do espaço como também na infinitude das partículas subatômicas, parece conduzir à destruição total do nosso universo, a menos que façamos grandes progressos na compreensão e no tratamento das tensões interpessoais e intergrupais.

Sinto uma grande humildade quando penso nos reduzidos conhecimentos que conseguimos neste campo. Espero o dia em que investiremos o equivalente ao custo de um ou dois mísseis na procura de uma compreensão mais adequada das relações humanas” (Carl Rogers, 1961).

Se você quiser conhecer melhor a ACP, ou aprofundar seus conhecimentos sobre essa abordagem, a Ser Psicólogo disponibiliza cursos de introdução e de capacitação que poderão lhe auxiliar nessa tarefa.

Bons estudos!

Para aprofundamento:

O que são as abordagens da Psicologia

A importância da obra de C. Rogers

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Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
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Jorge
Jorge
08/01/2026 15:35

Incrível reflexão!

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