A psicopatologia é uma área de conhecimento de natureza interdisciplinar, própria do campo da saúde mental, cujo objeto de pesquisa e intervenção é o sofrimento psíquico profundo e persistente. Não raramente, ela é confundida com a psiquiatria, o que constitui um grande equívoco, visto que a psicopatologia também recebe contribuições de campos como a Filosofia, a Psicologia e até mesmo a Sociologia.
Também é correto afirmar, contudo, que os manuais psiquiátricos exercem grande influência nesse campo, muitas vezes impondo-se como referenciais quase exclusivos para o trabalho em saúde mental. É o caso do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM) e do Capítulo 6 da Classificação Internacional de Doenças (CID), publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Por estarem historicamente vinculados ao trabalho médico, esses manuais acabam se consolidando como referências majoritárias em psicopatologia. O campo das psicoterapias não permanece imune a essa influência. Para ficarmos em apenas um exemplo, as psicoterapias cognitivas costumam adotar tanto a CID-11 quanto o DSM-5-TR (texto revisado) como referenciais hegemônicos em psicopatologia.
É a partir dessas questões que gostaríamos de refletir sobre o lugar da psicopatologia no trabalho em Psicologia. Para tanto, tomaremos como perguntas orientadoras as seguintes:
- Qual é a utilidade desses conhecimentos para as atividades cotidianas nos diferentes campos de atuação da Psicologia?
- Qual é a melhor forma de nos relacionarmos com a psicopatologia presente nos manuais médicos?
- Por onde podemos nos orientar para compreender o sofrimento psíquico profundo e persistente, para além desses manuais?
Em primeiro lugar, consideramos essencial afirmar a relevância da psicopatologia no momento histórico em que vivemos. Dados epidemiológicos sobre saúde mental, em escala global e especialmente no Brasil, sugerem que o sofrimento psíquico profundo e persistente está amplamente disseminado em sociedades como a nossa. Ou seja, estamos falando de um dos maiores desafios em saúde pública e coletiva da atualidade.
Para tomarmos um exemplo, podemos mencionar os desafios de saúde mental colocados pelo mundo do trabalho no Brasil ao longo dos últimos anos.
De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego, em 2025 cerca de 540 mil pessoas deram entrada em pedidos de afastamento laboral motivados por adoecimento emocional associado às atividades de trabalho. Convém lembrar que esses números dizem respeito apenas aos trabalhadores formais, amparados pelo sistema de seguridade social. Considerando os elevados índices de informalidade no Brasil, é plausível supor que as condições gerais de saúde mental dos trabalhadores brasileiros sejam ainda mais preocupantes.
Temos aí um primeiro motivo para reconhecer a psicopatologia como um conhecimento importante para o trabalho em Psicologia, independentemente do contexto em que ele ocorra. E o que está em questão não é a patologização indiscriminada dos comportamentos e das condutas, mas uma melhor preparação para acolher e compreender a demanda por sofrimento psíquico profundo e persistente nos mais diferentes espaços de atuação.

Mas, em relação aos manuais médicos hegemonicamente estabelecidos nesse campo, qual deve ser o posicionamento do profissional da Psicologia?
Em nosso entendimento, não há razões para um descarte absoluto desses referenciais. Antes de tudo, eles precisam ser investigados e conhecidos, a fim de que nossa apreciação não se torne preconceituosa ou apressada. Nesse sentido, o profissional da Psicologia que toma o DSM ou a CID como referência deve ter em mente, antes de tudo, que os conhecimentos ali sistematizados estão organizados a partir de pressupostos médicos e orientados pela chamada racionalidade nosológica e classificatória.
Na prática, isso significa que o uso desses manuais pelo psicólogo não deve ocorrer de forma acrítica, algo que, infelizmente, ainda é bastante comum. Em sentido contrário, o que se preconiza é que, nos casos em que o DSM e a CID sejam utilizados como referenciais psicopatológicos, esse uso ocorra de maneira crítica, parcial e seletiva. Uma atitude de permanente desconfiança epistemológica deve orientar essa aproximação, materializando-se na forma de perguntas e questionamentos constantes.
Para aprofundarmos essa discussão, tomemos como exemplo o diagnóstico de Transtorno da Personalidade Antissocial (TPAS), presente no DSM-5-TR.
De acordo com esse manual, o TPAS é descrito como “um padrão difuso de desconsideração e violação dos direitos das outras pessoas, que ocorre desde os 15 anos de idade”. Na prática, segundo o próprio DSM-5-TR, esse “padrão de desconsideração e violação dos direitos das pessoas” frequentemente se expressa por meio de características como:
a) fracasso em ajustar-se às normas sociais relativas a comportamentos legais, conforme indicado pela repetição de atos que constituem motivo de detenção;
b) tendência à falsidade, evidenciada por mentiras repetidas, uso de nomes falsos ou práticas de trapaça para obtenção de ganhos ou prazer pessoal;
c) irritabilidade e agressividade recorrentes;
d) ausência de empatia.
Diante dessa lista de “características diagnósticas”, cabe perguntar: estamos realmente diante de um problema de natureza médica? Nesse caso específico, não estaríamos diante de uma patologização de dificuldades comportamentais cuja origem pode estar relacionada à história de socialização dos sujeitos?
Aquilo que está em questão, em vez de demandar prioritariamente uma abordagem médica, não remeteria antes a problemas tradicionalmente investigados pela Sociologia e pela Psicologia? Se a resposta for afirmativa, o que nos garante que esse mesmo processo de patologização do sofrimento não esteja presente na descrição de outras categorias nosológicas do DSM e da CID?
É formulando perguntas dessa natureza que o psicólogo pode sustentar uma relação crítica com a psicopatologia médica e com a racionalidade que a orienta.
Finalmente, resta a última das questões anteriormente levantadas: onde o psicólogo encontra referências para a compreensão do sofrimento psíquico profundo e persistente para além dos manuais psiquiátricos?
Em primeiro lugar, é importante reconhecer que as próprias teorias psicológicas, cada qual à sua maneira, constituem importantes reservatórios de conhecimentos psicopatológicos. Desde seus primórdios, o sofrimento psíquico tem sido objeto de interesse e intervenção no campo da Psicologia. A psicanálise – embora não seja propriamente uma abordagem psicológica – constitui um exemplo emblemático dessa afirmação.
Desde as formulações iniciais de Freud até os desenvolvimentos posteriores elaborados por diferentes autores e autoras, a psicanálise sempre se mostrou atenta às formas de “mal-estar” produzidas socialmente. O mesmo poderia ser dito de campos como as terapias cognitivas e as abordagens existenciais-humanistas. Neles, o psicólogo encontra não apenas reflexões consistentes sobre a natureza do sofrimento psíquico profundo e persistente, mas também estratégias de intervenção sólida e teoricamente fundamentadas.
Além desse amplo reservatório de conhecimentos, também encontramos referenciais importantes para a compreensão do sofrimento psíquico profundo e persistente em outras áreas do saber, como as ciências sociais e as ciências da saúde. A principal contribuição dessas fontes reside no destaque conferido aos determinantes contextuais do adoecimento emocional, estimulando o psicólogo a pensar e atuar de maneira não reducionista e não culpabilizadora dos sujeitos.
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