O ano era 1979 quando o antropólogo e historiador estadunidense Christopher Lasch (1932-1994) lançou um livro marcante, intitulado The Culture of Narcissism: American Life in an Age of Diminishing Expectations. No Brasil, sua publicação ocorreu em 1983, com o título A Cultura do Narcisismo: a vida americana em uma era de expectativas decrescentes.
Antecipando de maneira impressionante algumas tendências culturais dos nossos dias, o livro de Lasch segue a mesma linha de outras análises de conjuntura, como aquelas encontradas em obras como Sociedade do espetáculo (Guy Debord), A sociedade de consumo (Jean Baudrillard) e, mais recentemente, nos trabalhos de Zygmunt Bauman sobre a modernidade líquida e de Slavoj Žižek sobre o imperativo do gozo, para ficarmos com apenas alguns exemplos.
O ponto central das análises de Lasch é a proposição de que, nas sociedades capitalistas, o narcisismo é muito mais do que um diagnóstico clínico: ele é um sintoma social.
Em outros termos, mais do que uma questão relacionada à individualidade e ao comportamento pessoal, para Lasch, enquanto sintoma social, o narcisismo remetia a um projeto específico de sociedade.
Entre os temas específicos abordados pelo autor estão a busca constante por validação externa por parte dos indivíduos, o consumo massivo de imagens e a exaltação da própria imagem pelos sujeitos, certas formas de declínio da autoridade (como a autoridade familiar) e uma espécie de obsessão pela saúde mental, representada pelo que ele denomina como uma “cultura terapêutica”.

Não é nosso objetivo, no escopo deste artigo, refletir sobre todas essas provocações, mas dialogar com a hipótese de que o narcisismo é – e permanece sendo – um sintoma social. Dessa forma, precisamos perguntar: que elementos presentes na vida social dos nossos dias confirmam essa hipótese?
Antes de enfrentarmos essa questão, vale mencionar que o conceito de narcisismo possui uma antiquíssima história em nossa cultura.
O ponto de partida dessa história é a obra Metamorfoses, texto composto por 12 mil versos, divididos em 15 livros, escrito pelo poeta romano Ovídio (43 a.C.–17 d.C.). Nela, conta-se a história de Narciso, um belíssimo jovem que, profundamente enamorado por sua própria imagem refletida em um espelho d’água, morre afogado ao tentar ir ao encontro dela.
O conceito de narcisismo sempre circulou por diferentes formas de saber, como a Mitologia, a Literatura, a Poesia, a Medicina e a Psicologia, assumindo sentidos distintos em cada um desses campos. A Psicanálise, por exemplo, conferiu grande importância a esse conceito, atribuindo-lhe um lugar específico em seu corpo teórico e contribuindo para sua disseminação no senso comum. Com o livro de Christopher Lasch, o conceito de narcisismo ganha uma nova acepção, de natureza sociológica.
Para o senso comum, o narcisismo é uma questão relacionada ao comportamento individual. Mais do que isso, o narcisismo é uma forma de descrever determinadas posturas no contexto das relações íntimas. Nesse sentido, o conceito funciona como um marcador moral e depreciativo. Narcisistas seriam pessoas com perfis dominadores e exploradores. Trata-se, portanto, de um “desvio individual” e de um “defeito de caráter”, muitas vezes concebido como parte da própria “natureza” dos indivíduos.
De certo modo, essas representações do narcisismo no senso comum também se alimentam do conceito de traços de personalidade. Nesse contexto, o narcisismo é compreendido como um traço generalizado da personalidade humana, apresentando diferentes magnitudes entre os indivíduos. Entretanto, ao negligenciar a discussão sobre os determinantes sociais da personalidade, a perspectiva dos traços também acaba por corroborar a naturalização e a individualização do conceito.
Se, há pouco mais de 40 anos, como descreveu Lasch, o capitalismo já produzia uma cultura do narcisismo, em sua fase atual isso ocorre de maneira ainda mais intensa. Nessa etapa, o discurso neoliberal e seu foco na responsabilização individual encontram-se radicalizados.
O conglomerado empresarial que denominamos big techs ocupa um lugar especialmente relevante nesse arranjo. Para além de suas pretensões mercadológicas, as big techs ampliam sua incidência sobre as subjetividades de maneira massiva e contínua, tendo como um de seus principais efeitos a individualização da vida.
Nas chamadas “redes sociais”, encontramos grande parte dessa dinâmica.
Como sabemos, a experiência nas redes sociais é dinamizada por algoritmos programados para manter os sujeitos no campo da individualidade. Entretanto, elas vão além disso. Especialmente as redes sociais baseadas na imagem – Instagram, Pinterest, Flickr e outras – estimulam os sujeitos a se colocarem no centro dos olhares públicos. Ser visto pelo maior número possível de pessoas e promover “engajamento” por parte delas passam a ser práticas cotidianas massificadas e naturalizadas.
Desse modo, a experiência nas redes sociais baseadas na imagem inverte a lógica do panóptico descrito por Michel Foucault em Vigiar e punir: o nascimento das prisões. Enquanto estrutura arquitetônica pensada para o controle dos corpos, o panóptico fundamentava-se na ideia de uma vigilância central – o “olho que tudo vê”. Nas redes sociais, essa lógica se inverte: os próprios sujeitos buscam ocupar o centro das atenções e dos olhares múltiplos.
É justamente nesse movimento frenético em direção ao olhar público e às recompensas na forma de “engajamento” que identificamos uma exacerbação narcisista enquanto sintoma social. A nosso ver, não podemos desvincular essa dinâmica da crise das grandes utopias, tão característica desta fase da história. O declínio dos grandes projetos utópicos lança os sujeitos em uma situação de desamparo, rapidamente preenchida pelo narcisismo massificado e por sua busca incessante por visibilidade a qualquer custo.
Por sua vez, o narcisismo socialmente massificado pelas redes sociais baseadas na imagem estimula a idealização da vida, a ostentação e a exaltação do efêmero, em detrimento do cultivo da alta cultura.

A idealização da vida é um produto das possibilidades de edição presentes nessas redes. A seleção e a edição de imagens, a escolha dos ângulos e o uso de filtros artificializam a experiência vivida e fazem circular a ilusão de uma felicidade permanente. A ostentação, como subproduto das redes, constitui uma nova forma de afirmação social. Já o cultivo do efêmero torna-se a estratégia preferencial para a captura da atenção, que, como sabemos, é o grande ativo das redes sociais e das big techs.
Milan Kundera (1929-2023) tratou da necessidade de sermos olhados em A insustentável leveza do ser. Vejamos o que ele nos diz:
“Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podemos ser classificados em quatro categorias, segundo o tipo de olhar sob o qual queremos viver. A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anônimos, em outras palavras, o olhar do público. […] Na segunda categoria, estão aqueles que não podem viver sem o olhar de numerosos olhos familiares. […] Em seguida, vem a terceira categoria, a dos que têm necessidade de viver sob o olhar do ser amado. […] Por fim, existe a quarta categoria, a mais rara, a dos que vivem sob os olhares imaginários dos ausentes. São os sonhadores”.
Quando Kundera escreveu essas palavras, as redes sociais ainda não existiam. Mas ele já intuiria sobre nossas inclinações narcísicas, embora não tenha utilizado esse termo. Na citação acima, observamos uma hierarquia em relação à nossa necessidade dos olhares alheios. E a mais fugaz e menos significativa é justamente aquela massificada atualmente pelas redes sociais baseadas na imagem: a necessidade de estarmos sob a atenção de múltiplos olhares públicos e anônimos.
O que isso nos sugere?
Sugere-nos que, se o capitalismo não é a origem do narcisismo, ele é um sistema que prospera ao potencializar esse traço da alma humana. É justamente por isso que consideramos tão oportunas as reflexões de Christopher Lasch. Enquanto seguimos pensando no narcisismo como uma tema da moralidade individual, as big techs e as redes sociais seguem massificando esse sintoma social e engolindo a todos nós nessa grande máquina de produção de subjetividades.
Para aprofundamento
Personalidade narcisista ou imaturidade psicológica?
