Apesar de todo o controle sobre a Natureza exercido pela Ciência, os recentes terremotos na Venezuela nos mostram que estamos sempre suscetíveis ao risco de grandes desastres naturais. Há forças da Natureza que não podem ser controladas e que, para o bem de determinadas comunidades, não podem ser ignoradas.
Mas, independentemente dessa dimensão indomável da Natureza, no dizer do sociólogo Ulrich Beck, vivemos em uma sociedade de risco. As sociedades capitalistas são sociedades de risco. Mas o que isso significa?
Uma sociedade de risco é aquela em que a vulnerabilidade às tragédias não decorre apenas de eventos naturais, mas também do avanço tecnológico. A presença constante dos riscos é o preço que se paga pelo conforto e pela dinamicidade proporcionados pela tecnologia. É justamente dessa consciência que nasce a noção de gestão integral dos riscos.
Para compreendermos melhor esse conceito, retornemos um pouco à história da Psicologia das Emergências e dos Desastres.
Tragédias de grande escala sempre estiveram presentes na história da humanidade. Referimo-nos à mortalidade causada pela fome, pelas doenças, pelas grandes secas e estiagens, pelas guerras, por incêndios de grandes proporções e por fenômenos naturais, como terremotos, maremotos e tsunamis.
Somente com a chegada do século XX teve início o estudo científico dessas situações, no qual também passaram a estar presentes os saberes psicológicos.
As grandes guerras mundiais do século XX, por exemplo, proporcionaram o contexto para o surgimento de muitos conceitos científicos nessa área. O estudo da neurose de guerra — isto é, dos traumas psicológicos produzidos pela experiência da guerra — criou as condições para o desenvolvimento da noção de transtorno de estresse pós-traumático, ainda hoje vigente.
Ao longo de todo o século XX, os conhecimentos produzidos pela Psicanálise, pela Psiquiatria, pela Psicologia e por campos como a Sociologia dos Desastres estiveram concentrados no cuidado com os efeitos dos desastres. Não havia, nesse período, uma preocupação com a dimensão preventiva, pois a questão central era: o que fazer com os indivíduos e as comunidades depois de atingidos pelos desastres? Em outros termos, poderíamos dizer que o foco desses estudos recaía exclusivamente sobre a recuperação.
Somente nos primeiros anos do século XXI o termo gestão integral dos riscos passou a circular e a ganhar notoriedade e concretude na forma de políticas públicas. Mas o que significa gestão integral dos riscos?
Gestão integral dos riscos é a expressão utilizada para descrever um conjunto de estratégias cujo objetivo é reduzir fatalidades, acidentes, emergências e desastres em sociedades nas quais os riscos são permanentes. Com esse conceito, vai-se além de uma perspectiva meramente curativa, concentrada na remediação dos indivíduos e das comunidades atingidos por emergências e desastres.
Gerir os riscos, nesses casos, significa organizar as ações em diferentes fases, que se iniciam na prevenção, passam pela mitigação e pela preparação, seguem para a resposta às emergências e aos desastres e culminam na reconstrução.
No Brasil, a gestão integral dos riscos, enquanto função do Estado, está formalizada na Lei nº 12.608, de 2012, que institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil. Nela, a gestão dos riscos é concebida em sua integralidade (conforme as fases anteriormente descritas) e deve ter caráter intersetorial, mobilizando áreas como Saúde, Educação e Assistência Social, além dos próprios órgãos e profissionais ligados à Defesa Civil.
Nesse ponto, cabe perguntar: como psicólogas e psicólogos podem se inserir nas ações de gestão integral dos riscos?
A representação mais difundida dos psicólogos que atuam nesse campo remete aos atendimentos individuais ou grupais realizados em campos de refugiados e abrigos temporários após a ocorrência de situações de emergência ou desastre.

Entretanto, cabe uma nova pergunta: como a Psicologia pode contribuir para as ações de prevenção às emergências e aos desastres?
Para responder a essa questão, precisamos recorrer ao conceito de percepção de risco, pois é justamente nesse ponto que a Psicologia pode oferecer uma de suas maiores contribuições à prevenção, no contexto da gestão integral dos riscos.
Então, o que é percepção de risco?
A percepção de risco está vinculada a uma área mais ampla de estudos denominada Psicologia da Percepção.
Nesse campo, afirma-se que a percepção humana do ambiente externo – e também do próprio organismo – não é condicionada apenas por fatores biológicos ligados aos nossos sistemas sensoriais. Embora dependa do aparato biológico como ponto de partida do ato perceptivo, a percepção também constitui um processo psicológico condicionado por fatores históricos, culturais e contextuais. É isso que explica as múltiplas possibilidades de percepção de um mesmo objeto ou fenômeno.
Tomemos dois exemplos.
Comunidades que convivem recorrentemente com fenômenos naturais de grande magnitude – terremotos e erupções vulcânicas, por exemplo – tendem a experimentar uma redução da percepção dos riscos por parte de seus membros.
Em outras palavras, quanto mais uma comunidade convive com eventos naturais disruptivos, mais se intensifica o processo de normalização desses eventos no cotidiano, reduzindo a percepção dos riscos que lhes são inerentes. Essa dessensibilização cumpre a função psicológica de reduzir os níveis de ansiedade coletiva, embora também produza efeitos potencialmente negativos.
Um segundo exemplo pode ser encontrado na realidade dos grandes centros urbanos, especialmente nas ocupações desordenadas de morros e encostas por pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Acossadas pela desigualdade social e pelo déficit habitacional das grandes cidades, essas pessoas encontram nas ocupações irregulares sua principal estratégia de sobrevivência. Infelizmente, todos os anos multiplicam-se as vítimas de desabamentos e soterramentos nessas áreas, muitas vezes com a equivocada responsabilização exclusiva dos fenômenos naturais.
A partir desse lugar social e das condições objetivas que ele impõe à vida, a percepção de risco também sofre alterações que acabam por aumentar a vulnerabilidade dos sujeitos. Onde muitos veem riscos, essas comunidades enxergam as únicas possibilidades concretas de sobrevivência. Nesse caso, a necessidade de moradia e de sobrevivência acaba eclipsando a percepção dos riscos.
Como psicólogos e psicólogas podem atuar nesses contextos?
De modo geral, na Psicologia das Emergências e dos Desastres, as possibilidades de atuação situam-se no âmbito das políticas públicas, do voluntariado ou de organizações paraestatais, entre as quais a Cruz Vermelha e a ONG Médicos Sem Fronteiras figuram entre as mais conhecidas.
No caso das políticas públicas, psicólogos que atuam em áreas como Saúde e Educação costumam ser mobilizados nessas ocasiões, integrando as equipes da Defesa Civil em seu trabalho junto às populações vulnerabilizadas.
Em qualquer desses contextos, o grande desafio para psicólogas e psicólogos consiste em trabalhar a percepção de risco sem elevar, de maneira prejudicial, os níveis de ansiedade das comunidades em situação de vulnerabilidade. E essa é uma tarefa para a qual poucas especialidades profissionais estão tão bem preparadas quanto a Psicologia.
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