Pode parecer improvável, mas o ponto de partida da Psicologia Humanista desenvolvida por Carl R. Rogers encontra-se nas ciências biológicas. E isso não porque Rogers tenha recebido formação acadêmica nesse campo. Na verdade, essa influência tem relação com elementos de sua biografia e com o fato de ele ter nascido no campo e ali vivido os primeiros anos de sua vida.
No campo, plantas e animais foram seus primeiros objetos de paixão intelectual. Essa experiência biográfica o acompanharia pelo resto da vida, misturando-se, anos mais tarde, à sua transição para o campo das ciências humanas. Convivendo cotidianamente com o mundo da natureza, Rogers formulou posteriormente um princípio que estaria no centro de sua psicologia:
Todos os organismos vivos surgem no mundo para cumprir um ciclo de desenvolvimento, o que significa que, dadas as condições ideais, esses organismos tenderão a desenvolver suas potencialidades latentes.
Esse é o princípio fundamental que norteia toda a psicologia rogeriana. Onde quer que seja – na clínica, na escola, nas organizações ou nas relações em geral –, o trabalho em psicologia deve colaborar para a construção das condições que tornam possível o desenvolvimento humano.
Também foi com base nesse princípio que Rogers descreveu o amadurecimento psicológico. Embora não tenha se preocupado em construir tipologias para descrever o amadurecimento psicológico, sua teoria dedica bastante atenção ao “funcionamento ótimo da personalidade”, entendido como uma competência da vida adulta.
Como se pode presumir, o amadurecimento psicológico é resultado de um processo bem-sucedido de formação humana, possível a partir de determinadas condições.
Rogers se referiu a algumas delas como “condições de valor”. Quanto mais o desenvolvimento ocorre em um clima psicológico marcado por segurança, afetividade positiva e liberdade, maiores serão as possibilidades de que, na vida adulta, os sujeitos “funcionem de modo ótimo”, isto é, sejam psicologicamente maduros e mentalmente saudáveis.
Mas o que é a maturidade psicológica? Quais são os seus traços distintivos?
A primeira característica do amadurecimento psicológico descrita por Rogers é o autoconhecimento.
O interesse em conhecer a si mesmo e em elevar os níveis de autoconsciência, para esse psicólogo, é um dos indicativos da maturidade psicológica. Aqui, encontramos um eco da tradição humanista, representada pelo aforismo que, segundo a tradição, estava inscrito na entrada do templo de Apolo, em Delfos: “conhece-te a ti mesmo”.
Para Rogers, o autoconhecimento tem a ver com a possibilidade de os sujeitos integrarem à sua autoimagem aspectos desconhecidos ou negados de sua personalidade. Em outras palavras, o autoconhecimento estaria relacionado à autoaceitação, condição necessária a qualquer processo de mudança pessoal. Logo, a pessoa psicologicamente madura admite sem dificuldade a possibilidade de mudar a si mesma.
Essa é uma das características da maturidade psicológica mais difíceis de emergir livremente, sem a contribuição da psicoterapia.
A segunda característica da maturidade psicológica, segundo Rogers, é a redução da distância entre o eu real e o eu ideal.
A idealização do eu, para esse psicólogo, é um fenômeno comumente vivenciado por todas as pessoas, ainda que nem sempre verbalizado externamente. A idealização do eu está ligada à “tendência atualizante”, princípio vital presente em todos os organismos e que aponta na direção do desenvolvimento integral.
Cada qual a seu modo, todas as pessoas idealizam “ser mais”. Pensando em algumas características da personalidade, por exemplo, todas as pessoas, cada uma à sua maneira, idealizam ser mais corajosas, mais inteligentes, mais criativas, mais autônomas e mais felizes.

Quanto menor for a distância entre o “eu ideal” e aquilo que o eu efetivamente é (o “eu real”), mais maduro psicologicamente será o sujeito. Não existem ferramentas para mensurar essa distância, pois ela pertence ao campo dos sentimentos. Ela só pode ser conhecida pelo próprio sujeito, quando este reflete com honestidade sobre seus níveis de satisfação consigo mesmo, com sua vida interna e com seus padrões de comportamento social.
A terceira característica da maturidade psicológica é um binômio: autoconfiança/autodiretividade.
A personalidade será mais madura quanto mais se desenvolver com o senso de que pode confiar em si mesma como centro de decisões. Em outros termos, a coragem é uma manifestação da maturidade. Também podemos pensar que, ao descrever essa característica, Rogers estivesse fazendo uma menção implícita à dependência emocional, tão presente na experiência de muitos sujeitos.
A autoconfiança e a autodiretividade, como traços da maturidade psicológica, não significam infalibilidade. Esse sujeito poderá fazer escolhas ruins, com consequências indesejadas. O que essas características significam é que tais pessoas não costumam delegar aos outros responsabilidades que são suas. Confiando em si mesmas para conduzir suas vidas, costumam encarar com serenidade as consequências de suas escolhas, mesmo quando negativas.
A penúltima característica da maturidade psicológica, segundo Rogers, é o desenvolvimento da capacidade de compreensão e de aceitação em relação aos outros.
A pessoa psicologicamente madura é menos reativa nas relações interpessoais, especialmente quando vivencia conflitos. Em lugar de reações intempestivas e imediatas, prefere refletir sobre as causas do comportamento alheio. Isso não a torna necessariamente dócil e passiva, o que não seria funcional. Mas, inegavelmente, confere-lhe níveis maiores de mansidão e temperança.
Isso quer dizer que a maturidade psicológica torna a pessoa menos vulnerável ao efeito de determinadas emoções e sentimentos. Diante dos conflitos, suas respostas tendem a ser mais orientadas pela reflexão do que por reações emocionais imediatas.
A capacidade de aceitação própria da maturidade psicológica tem a ver com a compreensão de que todos estamos em processo de formação. Dessa forma, não é de conformidade que estamos falando aqui, mas de empatia. Quanto mais madura a pessoa, mais empática e aceitadora ela será. E é exatamente isso que torna essas pessoas muito mais capazes de lidar de maneira construtiva com situações de conflito interpessoal.
Finalmente, a última característica da maturidade psicológica indicada por Rogers é a capacidade de enfrentar os desafios da vida de modo criativo e sereno.
Nesse ponto, Rogers está indicando que uma forma de reconhecermos as personalidades maduras é observar como as pessoas lidam com o sofrimento. Podemos lidar com o sofrimento de muitos modos. Em seus extremos, entendemos que o sofrimento pode produzir posturas que vão desde a passividade e a resignação completa, passando pelo medo paralisador, até o desespero profundo.
Para Rogers, pessoas psicologicamente maduras conseguem escapar desses extremos quando atravessam situações desafiadoras e ameaçadoras. A maturidade psicológica, nesse caso, tem a ver com a atitude de enfrentar o sofrimento de modo criativo, na busca pelas melhores alternativas para contorná-lo, sem que haja lugar para atitudes de desespero ou de capitulação. Em certo sentido, maturidade psicológica, aqui, é sinônimo de criatividade e força interior.
Para finalizarmos essas reflexões, é importante mencionar que Rogers elaborou esse esboço da maturidade psicológica no contexto de suas reflexões sobre os benefícios do trabalho em psicoterapia. Para ele, a psicoterapia deve oferecer as condições para que os sujeitos se explorem e, então, possam desenvolver essas características. Isso indica que a maturidade psicológica deve ser encarada como uma escolha.
Mas ela também pode ser resultado espontâneo das vivências fora dos consultórios. E, embora essa segunda possibilidade seja sempre mais complicada, podemos observá-la aqui e acolá.
Por isso, é fundamental que não deixemos de refletir sincera e constantemente sobre como vemos a nós mesmos, como nos vemos diante dos desafios da vida e como nos vemos nas relações com as pessoas com quem convivemos. Afinal, o que há de mais importante em tudo isso, outra vez, é que a maturidade psicológica é uma escolha, e das mais importantes para um bem-viver.
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