Uma resenha do livro Foco roubado: os ladrões de atenção da vida moderna (Johann Hari)
Foco roubado: os ladrões de atenção da vida moderna é a tradução brasileira de Stolen Focus: Why You Can’t Pay Attention, lançado em 2022 pelo jornalista estadunidense Johann Hari. No Brasil, a primeira edição foi publicada em 2024 pela editora Vestígio. Já em sua segunda edição, a tradução brasileira tem 326 páginas. Trata-se de um texto bastante acessível, dirigido a todas as pessoas, mesmo àquelas sem iniciação formal nos debates sobre saúde mental.

Johann Hari parte de uma hipótese instigante: estamos atravessando uma crise global relacionada à diminuição vertiginosa de nossas capacidades atencionais. O autor argumenta que existe um conjunto variado de fatores que contribuem para essa crise, de modo que os capítulos do livro exploram diferentes “ondas” de ataque à nossa atenção.
A primeira metade do livro (capítulos 1 a 7) dedica bastante espaço à reflexão sobre os problemas decorrentes de nossa relação com a tecnologia contemporânea. Entremeando seus argumentos com uma narrativa autobiográfica, Hari reflete sobre como nossa relação com os celulares e com as redes sociais impacta algumas de nossas habilidades mentais mais preciosas, além de afetar até mesmo funções neurofisiológicas, como o sono.
Para o autor, estamos perdendo gradativamente nossa capacidade de alcançar estados de fluxo – nesse ponto, estabelece-se um excelente diálogo com o trabalho do psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi –, bem como nossa capacidade de ler com profundidade e de nos entregar à divagação mental. O livro explora com muito êxito os custos envolvidos nessas perdas e mostra como elas se relacionam tanto com a organização da sociedade quanto com nossa qualidade de vida individual.
Johann Hari expõe o modelo de negócios das chamadas big techs, associando-o ao “capitalismo de vigilância” – noção proposta por Shoshana Zuboff –, para denunciar os danos causados às pessoas desde que a atenção passou a constituir um dos principais ativos econômicos dessas empresas. Mas, além dessa denúncia, o autor apresenta algumas proposições para superarmos essa crise, envolvendo tanto atitudes de autocuidado quanto formas de articulação da sociedade civil.
Além da relação problemática com a tecnologia, Johann Hari identifica outros fatores contextuais que também contribuem para a drenagem gradativa de nossa atenção. Eles são explorados na segunda metade do livro (capítulos 8 a 12). Entre eles, o autor destaca o surto de estresse produzido pelas exaustivas jornadas de trabalho em todo o mundo, a baixa qualidade de nossos hábitos alimentares e a poluição ambiental.
Esse é, sem dúvida, um dos pontos altos do livro, visto que o autor procura evitar o lugar-comum de atribuir as origens da crise atencional a um único fator precipitante.
Para ele, essa crise é resultado de todo um conjunto de forças que caracterizam o modelo de sociedade em que vivemos. E é exatamente por essa razão que o autocuidado não pode ser a única resposta a essa crise. Para Hari, se não houver focos de resistência coletiva por parte da sociedade, o autocuidado pode assumir a forma de um “otimismo cruel”.

Muito acertadamente, os dois últimos capítulos do livro são dedicados à infância e aos impactos de tudo isso sobre ela. Dessa forma, Hari reflete sobre o aumento dos diagnósticos de TDAH em nossos dias e coloca em questão o processo de medicalização infantil associado a esse crescimento. O autor discorre sobre os riscos relacionados à hipermedicalização da infância e propõe que voltemos a uma infância baseada na liberdade e no livre brincar.
Johann Hari termina o livro afirmando que precisamos urgentemente iniciar uma “rebelião da atenção”. Desse modo, encerra a obra apresentando um conjunto de grupos e organizações que já militam em favor da preservação de nossas capacidades atencionais e convocando-nos a nos juntar a essas entidades atuantes ao redor do mundo.
Embora o autor não seja formalmente ligado ao campo da saúde mental, entendemos que Foco roubado oferece importantes contribuições para um dos debates mais delicados de nossa agenda atual. A nosso ver, Hari consegue desenvolvê-lo com leveza, estabelecendo com muita competência um diálogo com algumas das mais relevantes fontes acadêmicas disponíveis atualmente sobre o tema.
Assim, estamos diante de um livro altamente recomendado para o público em geral. Para os estudantes de Psicologia, assim como para os psicólogos e psicólogas em atuação, a leitura dessa obra pode ser compreendida como uma importante responsabilidade cívica e profissional.
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Foco roubado foi mais uma das obras lidas no Clube do Livro da Ser Psicólogo.
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Para aprofundamento
A crise da atenção e o futuro da saúde mental
