O que o Setembro Amarelo diz sobre a formação profissional em saúde mental

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Que o problema do suicídio seja, de fato, uma questão de altíssima relevância em todo o mundo, ninguém discorda. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada ano cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio ao redor do planeta. Isso representa um número de perdas humanas superior ao que se verifica em muitos conflitos bélicos da atualidade.

Em função do crescimento progressivo do número de suicídios em todo o mundo, desde 2015 alguns países signatários da OMS – a exemplo do Brasil – passaram a realizar a campanha Setembro Amarelo, destinada à difusão de informações que favoreçam a prevenção dessas mortes, consideradas evitáveis.

Tendo como origem a Associação Americana de Psiquiatria (APA), atualmente o Setembro Amarelo conta com a mobilização de diversas categorias profissionais que atuam no campo da saúde mental, incluindo os profissionais da Psicologia. Durante o mês de setembro, esses profissionais são mobilizados para a realização de palestras, workshops e outras intervenções em diferentes espaços, na expectativa de contribuir para a mitigação do problema.

Passados 11 anos desde o início da campanha Setembro Amarelo nos Estados Unidos, temos conhecimento de alguns dados epidemiológicos que merecem atenção. Segundo esses dados, desde 2015 até o presente momento, os registros de mortes por suicídio em todo o mundo vêm aumentando, o que nos instiga a refletir sobre a efetividade da campanha.

Uma das questões cruciais a serem discutidas, e que é bastante veiculada durante a campanha Setembro Amarelo, diz respeito à vinculação predominante entre mortes por suicídio e transtornos mentais, com destaque para os transtornos depressivos.

De acordo com a própria OMS, mais de 90% dos suicídios efetivados ao redor do mundo seriam motivados por transtornos mentais, como a depressão. Para muitos setores críticos desse campo, o que temos, nesse caso, é uma patologização exacerbada do sofrimento psíquico, realizada de acordo com a racionalidade e os interesses do discurso psiquiátrico.

Apesar da relevância dessa crítica, não se nega que os transtornos depressivos possam, de fato, estar relacionados ao grande número de mortes por suicídio a cada ano. O que está em questão é o fato de que as raízes da depressão não sejam problematizadas e de que ela seja tratada como um problema de natureza individual e como uma disfunção de raízes biológicas. E aqui temos um dos grandes limites que encontramos na campanha Setembro Amarelo.

É preciso contextualizar devidamente a epidemia de depressão e de suicídios ao redor do mundo. Se, de fato, transtornos mentais como a depressão estão relacionados a tantas mortes por suicídio, precisamos perguntar pelas causas de tanta depressão. Essa pergunta nos afasta da individualização e da culpabilização dos sujeitos, situando o problema também no âmbito público, político e social.

Dessa forma, não basta à campanha Setembro Amarelo fazer referência às mortes anuais por suicídio ao redor do mundo e estimular práticas individuais de autocuidado em saúde mental. Ao proceder dessa maneira, o Setembro Amarelo revela um sintoma de nossa própria formação profissional: a saúde mental tratada predominantemente como uma questão das individualidades.

O Setembro Amarelo deveria ser uma campanha de conscientização sobre a determinação social do adoecimento emocional.

Em lugar de apontar para os indivíduos e sugerir-lhes práticas de autocuidado emocional, essa campanha deveria ampliar a consciência coletiva sobre a multideterminação do sofrimento psíquico. Nesse caso, seus principais interlocutores passariam a ser também os sujeitos que ocupam os espaços de decisão responsáveis por moldar nossa vida coletiva.

Como todos os transtornos mentais, o comportamento suicida também é motivado por múltiplos fatores.

Esses fatores vão desde as condições de habitação e de segurança até o tipo de trabalho que se exerce e sua jornada – ou ao desemprego –, passando pelas possibilidades de acesso aos serviços de saúde, por fatores relacionados ao pertencimento étnico e à orientação sexual, por aspectos de natureza cultural e simbólica mais amplos e também pelo estilo de vida dos sujeitos. Chamamos isso de determinantes sociais da saúde e da doença, que também ajudam a explicar as condições de surgimento do adoecimento mental em todo o mundo.

Com isso, não se nega, mais uma vez, a realidade da grande difusão da depressão ao redor do mundo. O que se propõe aqui é compreender que a depressão – assim como a biologia e o corpo – não é necessariamente o ponto de partida desses dados epidemiológicos. O corpo que deprime e que aciona mecanismos de autoextermínio é também ponto de chegada; ou seja, ele responde aos limites impostos por determinados contextos sociais.

Sendo assim, o Setembro Amarelo deveria ser uma oportunidade para pensarmos nas reformas necessárias para que a vida em sociedade se tornasse mais leve e mais satisfatória. Quais políticas, em quais áreas, podem contribuir para fomentar mais saúde e menos opressão emocional? O que isso tem a ver com as políticas de trabalho e de produção de renda? Ou com a segurança pública? Ou com a ampliação do acesso aos serviços de saúde pública? Ou com a equidade de gênero e de orientação sexual? Ou, ainda, com a equidade em relação à diversidade étnico-racial?

No Brasil, são, em média, 12 mil suicídios por ano. A faixa etária entre 15 e 29 anos é uma das mais atingidas. As populações indígenas e a comunidade LGBTQIAPN+ também apresentam números superiores aos de outros grupos sociais. Todas essas cifras fazem do suicídio mais do que uma questão da individualidade. Estamos falando de um problema de saúde pública e coletiva.

Por todas essas razões, não nos parece muito empático nem muito justo responsabilizar unicamente os indivíduos por sua integridade emocional, exigindo deles práticas de autocuidado, uma vez que estamos falando de pessoas que vivem em situação de miséria, de opressão ou sem acesso a direitos fundamentais produzidos socialmente.

Por outro lado, cada morte de um ser humano neste mundo carrega, de algum modo, as marcas do tipo de sociedade em que vivemos. O suicídio, para muitas dessas pessoas, constitui uma resposta desesperada a situações que produzem e intensificam seus dilemas emocionais. Superar essa sociedade e suas contradições também é produzir saúde, e nós deveríamos falar mais sobre isso durante este mês.

Do modo como ocorre atualmente, o Setembro Amarelo explicita o quanto nossa formação em saúde mental permanece reducionista e individualista, porque ainda atravessada por suas heranças liberais. Desse modo, é preciso rompermos com o atual discurso individualizante do Setembro Amarelo, e com a responsabilização que ele transfere aos sujeitos, tendo em vista que tal discurso não produz efeitos positivos no corpo social.

Como dizia o poeta espanhol Antonio Machado, “se hace el camino al andar”. Portanto, sigamos andando na direção de práticas em saúde mental mais contextualizadas e mais empáticas, e que coloquem em xeque o que chamamos de patologias do social.

Sem equidade social não há saúde mental.

Para aprofundamento

Ansiedade e depressão: Os males do século

Determinantes sociais em saúde
(mental): analisando uma experiência não
governamental sob a ótica de atores implicados

Picture of Paulo Nascimento

Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
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