O sujeito de desempenho e a super-psicologia: uma resenha de ‘Sociedade do cansaço’ (Byung-Chul Han)

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Dezesseis anos após seu lançamento, em 2010, o livro Sociedade do cansaço, do filósofo coreano Byung-Chul Han, continua servindo como uma importante referência para compreendermos melhor os desafios do nosso tempo. Apesar das muitas transformações ocorridas no mundo desde então, o texto ainda mantém sua atualidade e continua interessando também ao campo da Psicologia.

Para Byung-Chul Han, vivemos em meio a uma “sociedade do cansaço”, na qual o protagonista central é o “sujeito do desempenho”. Mas antes de avançarmos na descrição desses conceitos, vale resumir alguns contrapontos analíticos dos quais o autor parte.

Segundo Byung-Chul Han, não estamos mais na era bacteriológica, na qual as principais formas de sofrimento eram causadas por agentes externos e por sua negatividade constitutiva. Teríamos superado essa era por meio da ciência, sobretudo através das vacinas, dos tratamentos medicamentosos e de outras formas de contenção da negatividade dos agentes biológicos.

Estaríamos, de acordo com o autor, vivendo uma era das doenças neuronais, que não são causadas por agentes externos e por sua negatividade constitutiva, mas por um “excesso de positividade”. É nesse contexto que ele situa a grande difusão de adoecimentos como a depressão, a Síndrome de Burnout, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o transtorno limítrofe (mais conhecido no Brasil como borderline).

Outra contraposição feita pelo autor é entre o sujeito do desempenho e o “sujeito da obediência”. Este último representa a subjetividade produzida pela sociedade disciplinar (Michel Foucault), marcada pela servilidade e pela opressão externa, principalmente aquela oriunda das lutas de classes. Em outros termos, o sujeito da obediência sofre porque é explorado nas relações de trabalho e, por meio da obediência, procura encontrar seu lugar no arranjo social.

O sujeito do desempenho da sociedade atual sofre por outras razões.

Segundo Byung-Chul Han, seu cansaço e seu padecimento mental têm relação com a exploração autoimposta, praticada sob o mote da liberdade. Afetados pelo excesso de positividade de seu contexto, os sujeitos colapsam ao não conseguirem alcançar desempenhos condizentes com aqueles socialmente estimulados. Para o autor, tudo isso reflete um contexto de profunda “violência neuronal”.

Mas o que é esse “excesso de positividade” de que fala Byung-Chul Han?

Excesso de positividade é o termo usado pelo autor para se referir aos discursos que exaltam a superprodução, o superdesempenho e a supercomunicação. Dentre os estilos de vida possíveis em nossa sociedade, o sujeito do desempenho é o sujeito ideal. Ele é empreendedor e livre de coerções externas. Investe em si mesmo e vive em função da maximização de resultados. A depressão surge justamente quando os sujeitos se frustram em meio a esse projeto.

O excesso de positividade também está relacionado, segundo o autor, à grande quantidade de estímulos que circula atualmente. Apesar de não fazer referências diretas às redes sociais, pode-se presumir que elas já estivessem no centro de sua atenção em 2010. Para Byung-Chul Han, a hiperestimulação produzida pela internet põe em colapso nossas capacidades atencionais, especialmente pelo estímulo ao funcionamento chamado de “multitarefa”.

Para o autor, a hiperatividade produzida por essa hiperestimulação é um retrocesso civilizatório, pois está na contramão das condições necessárias ao pensamento lento e profundo, exigido por nossas grandes realizações culturais e filosóficas. Sem certa capacidade de administrar o tédio – um inimigo do sujeito do desempenho –, elas não seriam possíveis.

Como efeito da sociedade do cansaço, temos hoje, conforme Byung-Chul Han, uma sociedade que naturalizou a administração de seu esgotamento por meio de diferentes formas de dopagem. Em resumo, a sociedade do cansaço é simultaneamente a “sociedade do doping”. Isso se expressa na popularidade que possuem hoje os psicofármacos, sejam eles usados de forma devidamente prescrita ou não.

Apesar de se apresentar como uma importante denúncia, o texto é encerrado com alguns convites à resistência ao estilo de vida exaltado pela sociedade do cansaço. Os convites feitos pelo autor têm a ver com a recuperação da capacidade de celebração festiva da vida e com a dedicação a tempos de silêncio e contemplação.

A nosso ver, esse pequeno texto apresenta provocações muito importantes para os debates em Psicologia, com destaque para suas possíveis contribuições à Psicologia Social e à Psicopatologia.

Existe um hábito muito arraigado entre psicólogos e psicólogas: o de individualizar formas de sofrimento e mal-estar como as que são mencionadas pelo autor desse livro. Como a depressão, o Burnout e o TDAH – para ficar com esses exemplos – se expressam sempre em casos individuais, isso produz o efeito ilusório de que o indivíduo é seu ponto de partida. O livro Sociedade do cansaço contribui para o questionamento dessa maneira de raciocinar.

O texto segue a linha daquilo que, na epidemiologia crítica em saúde, chamamos de determinação social da saúde e da doença. Esse é um campo de estudos que busca compreender como certas formas de adoecimento estão ligadas a fatores contextuais.

A dimensão do estilo de vida individual, assim como as vulnerabilidades biológicas dos indivíduos, não são desconsideradas como elementos explicativos para o mal-estar, mas somam-se à reflexão sobre a influência de fatores ligados ao trabalho, às condições ambientais e de habitação, ao acesso a serviços formais de saúde etc.

Apesar de o texto de Byung-Chul Han não ter como objetivo realizar uma reflexão tão ampla, ele ajuda a compreender como certas formas de mal-estar subjetivo estão relacionadas a aspectos econômicos e ideológicos, que ele resume sob a expressão “sociedade do desempenho”.

Dessa forma, apesar de seus limites, Sociedade do cansaço agrega importantes elementos tanto para a melhor compreensão dos discursos que nos interpelam na atualidade quanto para a reflexão sobre as práticas em Psicologia. Quanto aos psicólogos e psicólogas que se dedicam aos cuidados em saúde mental, esse é um texto que nos ajuda a não culpabilizar os sujeitos por seu sofrimento, como se eles fossem o ponto de partida para ele. E isso não é desprezível.

Para finalizar, vale dizer que a ideologia do superdesempenho também interpela psicólogos e psicólogos em seu exercício profissional. Sobretudo nas redes sociais esse discurso se multiplica, de modo que um “psicólogo de sucesso” é apresentado como aquele que atende a milhares de pessoas e recebe uma super-remuneração, muito acima da média dos seus colegas. Trata-se do discurso sobre os super-psicólogos.

Dialogando com as questões discutidas em Sociedade do cansaço, diríamos que nesse caso, além da vulnerabilidade ao colapso neuronal, os super-psicólogos também correm o risco da empobrecimento de suas práticas profissionais, visto que a qualidade sempre tende a ser sacrificada no altar na quantidade.  

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Para aprofundamento

Porque você deveria participar de um Clube do Livro (para psicólogos e acadêmicos)

Resenha crítica de Sociedade do cansaço

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Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
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