Como discutimos em nosso artigo anterior, padrões de comportamento evitativo podem se tornar tão dominantes que acabam por determinar todo o modo de ser de um indivíduo. Esses são os casos em que falamos do Transtorno da Personalidade Evitativa (TPE) – um padrão de personalidade marcado pela inibição social, por sentimentos de inadequação e pela hipersensibilidade às avaliações dos outros. Como se pode presumir, isso extrapola em muito o traço que chamamos de timidez.
Como também discutimos no texto anterior, o manejo do estresse pode assumir diversas formas, sendo comum que os comportamentos de evitação sirvam a esse propósito. Entretanto, cabe-nos perguntar: como avaliar os padrões evitativos à luz do conceito de maturidade psicológica? Personalidades marcadas pela inibição social, pelo sentimento de inadequação e pelo medo constante das críticas alheias podem ser consideradas psicologicamente imaturas?
Propomos, então, retomar a noção de maturidade psicológica, conforme sugerida por Carl Rogers, para enfrentar esses questionamentos.
Para Rogers, a maturidade psicológica e o “funcionamento ótimo da personalidade” mantêm uma relação orgânica. Por “funcionamento ótimo da personalidade”, compreende-se uma experiência subjetiva caracterizada pelo equilíbrio, pela autenticidade e pela congruência. Nesse estado, a pessoa sente que tem sido ela mesma, a despeito das condições que a cercam. Traduzindo isso para a terminologia da saúde mental, diríamos que o funcionamento ótimo da personalidade implica saúde e bem-estar.
A maturidade psicológica – assim como o funcionamento ótimo da personalidade – corresponde a uma determinada etapa do desenvolvimento psicológico do indivíduo. Por isso, diferencia-se essencialmente das características presentes em etapas anteriores desse processo. Vejamos algumas características que, segundo Rogers, estão associadas ao amadurecimento psicológico:
• maior nível de autoconhecimento e de autoaceitação;
• maior sensação de proximidade em relação ao “eu ideal”;
• mais autodiretividade e autoconfiança;
• maior capacidade de compreensão e de aceitação dos outros;
• maior capacidade de enfrentar os problemas da vida de forma criativa e serena.
Alguns pontos precisam ser destacados sobre a lista acima.
Primeiramente, nenhuma dessas capacidades é inata ou exclusiva de pessoas “especiais”; ao contrário, podem ser desenvolvidas por qualquer indivíduo, desde que existam determinadas condições. Em segundo lugar, a aquisição dessas características depende do histórico relacional da pessoa, de modo que tanto a maturidade quanto a imaturidade psicológica são resultados dessa história. Por fim, dadas certas condições, é possível retomar o processo de amadurecimento em qualquer momento da vida.

Nos padrões de personalidade evitativa, todas essas características encontram-se significativamente atrofiadas. Dentre elas, destacam-se as limitações na autodiretividade, na autoconfiança e na capacidade de enfrentar os problemas da vida de forma criativa e serena. Em termos mais simples, os padrões evitativos de personalidade constituem uma expressão da imaturidade psicológica.
Como sabemos, Rogers não se dedicou à formulação de conceitos psicopatológicos. Ao longo de toda a sua carreira como psicoterapeuta e pesquisador, preferiu compreender as condições necessárias ao desenvolvimento dos potenciais humanos. A constituição do self, segundo esse autor, depende da história relacional da pessoa. Por isso, tanto a maturidade quanto a imaturidade psicológica se explicam a partir desse mesmo fundamento.
Sob uma perspectiva rogeriana, o que chamamos de TPE é o resultado de um histórico relacional marcado por rejeição, críticas invalidantes ou experiências de humilhação. Essas condições atuam bloqueando a tendência atualizante (isto é, os potenciais de desenvolvimento da pessoa), na medida em que contribuem para a constituição de um self organizado em torno da necessidade constante de autoproteção.
O estado permanente de incongruência é outro subproduto desse processo de constituição do self dominado pela evitação. De um lado, o indivíduo deseja desenvolver seus potenciais de sociabilidade; de outro, vê-se impedido de fazê-lo pelo medo, pela ansiedade e por uma autoimagem depreciativa. O “eu real” e o “eu ideal” permanecem cindidos e distantes. Nesse contexto, a autoconfiança e a autodiretividade — marcas decisivas da maturidade psicológica — encontram-se seriamente comprometidas.
Além disso, sob essa mesma perspectiva, os padrões evitativos devem ser compreendidos como formas imaturas de lidar com os desafios da vida. A generalização do comportamento evitativo implica uma redução das capacidades criativas do indivíduo. Em geral, tendemos a associar a criatividade exclusivamente às atividades intelectuais, como a produção acadêmica ou artística. No entanto, a criatividade também se expressa na capacidade de encontrar soluções sensatas para os desafios cotidianos.
Desse modo, a generalização do comportamento evitativo representa um empobrecimento subjetivo, frontalmente oposto à tendência atualizante. Tomemos como exemplo uma das formas mais comuns de comportamento evitativo: a procrastinação.
A pergunta “por que procrastinamos?” tem recebido inúmeras respostas. As chamadas “neuroexplicações”, por exemplo, sugerem que a procrastinação expressa, em termos comportamentais, a tendência dos organismos (e do cérebro) à economia de energia. Já as explicações psicologizantes indicam que ela pode estar relacionada aos níveis de motivação, especialmente quando afetados por estados de desregulação do humor.
Do ponto de vista da teoria rogeriana, quando a procrastinação integra um padrão de comportamento evitativo — como nos casos de TPE —, ela deve ser compreendida em termos existenciais. Ou seja, trata-se de uma expressão comportamental de uma subjetividade afastada de seus próprios potenciais. Em outras palavras, quando a procrastinação se torna um hábito, ela pode indicar um funcionamento psíquico deficitário, ainda em processo de amadurecimento.
Não é por acaso que pessoas com TPE sofrem intensamente. Esse sofrimento é frequentemente agravado pela vulnerabilidade a comorbidades como a depressão, os transtornos de ansiedade e o uso abusivo de substâncias, entre outros exemplos. O estado permanente de incongruência tende a produzir adoecimento emocional. Essa é uma das razões pelas quais, sob a perspectiva da Psicologia Humanista, saúde mental e questões existenciais são indissociáveis.
Como temos refletido, o cuidado com pessoas que apresentam transtornos da personalidade não implica a patologização das diferenças. Ele se justifica pelo fato de que esses transtornos impõem níveis significativos de sofrimento emocional e prejuízos importantes à qualidade de vida. Nesse sentido, a terapêutica será tanto mais eficaz quanto mais conseguir oferecer acompanhamento especializado, preferencialmente de caráter multiprofissional.
Nesse contexto, a psicoterapia ocupa um lugar central. É por meio dela que o sujeito pode estabelecer um contato mais consistente consigo mesmo, acessando dimensões de sua subjetividade que não estão disponíveis a outras especialidades profissionais. No caso das psicoterapias humanistas, sua principal vantagem está na possibilidade de favorecer o processo de amadurecimento psicológico. Para aqueles que sofrem com padrões evitativos, isso pode representar o ponto culminante do tratamento.
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Para aprofundamento
Timidez, ansiedade social ou padrões evitativos?
Transtorno de personalidade evitativa: percepções atuais
