Depois da pandemia de Covid-19 vimos surgir entre os psicólogos e as psicólogas no Brasil um grande interesse em temas relacionados à Tanatologia, em geral, e ao que venho chamando de uma Psicologia do Luto, em especial. O livro Psicologia do luto em tempos de Covid-19 (2021), de minha autoria, é um dos exemplos desse movimento. No presente texto gostaríamos de (1) definir a experiência natural do luto, (2) apontar os limites das classificações nosológicas que fazem referência ao luto disfuncional, (3) explicar quando o luto deve ser objeto de cuidados psicológicos e (4) o que isso tem a ver com a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), construída e desenvolvida por Carl Rogers.

A experiência natural do luto
Comecemos por explicar a experiência natural do luto. Em sua ocorrência corriqueira, o luto deve ser entendido como uma resposta natural do organismo diante da ruptura extrema de alguma relação significativa. Nem sempre essa resposta é precipitada pela morte física de outra pessoa. Lutos podem ser precipitados por perdas como o fim de uma relação amorosa, por demissões do trabalho, por deslocamentos forçados de territórios, dentre outras situações. Mas mesmo com essa variedade em mente, gostaríamos de centrar nossa atenção no luto decorrente da morte de um ente significativo.
Fenomenologicamente, esse luto é um estado de profunda prostração da pessoa. Há intensa dor psíquica manifestada nos pensamentos, nas emoções e nos comportamentos. Trata-se de um movimento aberto pelo organismo cuja função parece ser a produção de uma pausa ou lentificação compulsória na vida, a fim de que ela encontre meios de se refazer. Enquanto resposta natural, esse movimento é sempre um ciclo cujo final indica que o movimento da vida está seguindo seu fluxo.
Uma das características centrais da fenomenologia do luto é seu movimento descendente. Isso quer dizer que no início desse ciclo as respostas de dor e os sentimentos de desolação tendem a ser agudos e desesperadores. Quanto mais próxima da separação física, mais agudas tendem a ser essas respostas. Contudo, dentro de certas circunstâncias – que incluem o tempo, a agência e as redes de apoio disponíveis aos sujeitos – a intensidade de tais respostas tende a diminuir. E é justamente essa diminuição que permite que a pessoa faça gradativamente as adaptações necessárias para que o fluxo da sua vida siga em frente.
Quando ocorre nesses termos, essa experiência não pode ser adjetivada de “patológica”. Pelo contrário, a capacidade de sentir a dor das perdas é sinal de uma formação emocional exitosa e saudável. Esse luto também não pode ser descrito como “disfuncional”. Ao contrário disso, apesar do sofrimento que ele impõe, seu ciclo tem a função de resguardar a pessoa temporariamente, a fim de que haja possibilidade de reconstrução dos aspectos da vida afetados pela perda. Nesses casos, as ajudas terapêuticas podem até ser acionadas. Mas geralmente os sujeitos podem atravessar esse ciclo sem elas.
O luto nas classificações nosológicas
Para além da compreensão do luto como resposta natural do organismo, alguns sistemas de classificação nosológica como a Classificação Internacional das Doenças (CID-11) e o Manual diagnóstico e estatístico dos transtornos mentais (DSM-V-TR) estabelecem limites temporais para esse ciclo. A CID-11 tolera o período de 6 meses, enquanto no DSM-V-TR o tempo estimado é de um ano. O rompimento desses prazos, junto à gravidade dos sintomas e aos prejuízos funcionais eventualmente causados, oportuniza o diagnóstico do Transtorno do Luto Prolongado.

Os fundamentos filosóficos que alicerçam a ACP levam esses psicólogos a recusarem a patologização da experiência do luto. Pelos mesmos fundamentos, eles também compreendem que os critérios cronológicos dos sistemas de classificação nosológica são arbitrários. Mas a despeito disso, os psicólogos centrados na pessoa reconhecem que existem experiências de luto refratárias, distintas do caráter cíclico do luto natural que suscitam a necessidade de acompanhamento. Nos referimos àquelas experiências do luto sem o movimento descendente ao qual nos referimos anteriormente.
Luto e terapêutica Humanista
Para um psicólogo centrado na pessoa, esse luto de contornos refratários pode ser uma expressão do estágio de amadurecimento em que se encontra o sujeito. No caso de um trabalho de psicoterapia, duas linhas de frente poderão se abrir: (1) a compreensão dos recursos internos disponíveis à pessoa e o nível em que eles se encontram; (2) as possibilidades que a experiência coloca à expansão do amadurecimento.
Nesse ponto, recordemos resumidamente algumas características da maturidade psicológica apontada por Rogers, como resultado de seu trabalho psicoterapêutico. Primeiro, o amadurecimento tem a ver com a expansão da consciência e com a integração de aspectos dela antes desconhecidos ou negados pela pessoa. Além disso, há o crescimento da autodiretividade, da autoconfiança e da capacidade de compreensão em relação aos outros. Finalmente, esse processo tem a ver com a aptidão para enfrentar os problemas da vida com mais criatividade e serenidade.
Se pudéssemos inverter as características da maturidade psicológica apontadas por Rogers, o resultado seria o seguinte: a imaturidade psicológica tem a ver com um nível de autoconsciência pobre, com a dependência em geral e com a baixa autoestima, com a incapacidade de compreensão dos outros, com a pobreza de recursos para enfrentar os problemas da vida e com níveis baixos de tolerância à frustração. E é justamente isso que o luto encontra em muitas situações.
O luto é sempre uma experiência profunda, transformadora, exigente. É por isso que ele exige maturidade psicológica. Por outro lado, o luto refratário pode apontar para a atrofia do desenvolvimento pessoal, expresso em relações marcadas pela dependência. Em muitas situações o luto refratário evidencia a criança em desespero diante da responsabilidade de prosseguir sozinha o caminho da vida. Em terapia essa pode ser uma descoberta dolorosa, feita no olho do furacão. Mas se a vocação dos sujeitos é para o desenvolvimento de sua potência ontológica, esse mesmo sofrimento pode ser ressignificado, e se tornar “adubo” para o ser.
Para a ACP o luto refratário não é somente um termômetro da maturidade psicológica. Ele também pode ser oportunidade de reconstrução e de expansão dos recursos internos da pessoa. Recusando as compreensões fixistas e fatalistas sobre os sujeitos, Rogers sempre procurou acentuar o caráter cambiante da pessoa, enfatizando acerca de sua capacidade de transformação na direção do crescimento. Toda pessoa é um “processo fluido, um rio corrente de mudanças, uma constelação de potencialidades continuamente mutáveis”, dizia esse autor.
O cotidiano nos indica que essa fluidez que nos constitui vai se manifestando ao sabor das experiências que vivemos e das relações que cultivamos. É o vivido que nos transforma, no qual as relações têm um peso decisivo. Enquanto experiência exigente, o luto pode redirecionar a pessoa para aquela maturidade psicológica antes mencionada. Falando sobre o luto, Ana Claudia Quintana Arantes utiliza uma metáfora na qual ela sugere que o luto é como uma caverna escura na qual o sujeito é atirado, e da qual ele precisa construir uma nova saída. Diríamos que a maturidade psicológica fornece as ferramentas necessárias para tal empreitada.
Portanto, como trabalha um psicoterapeuta centrado na pessoa diante de situações de luto refratário? Ao acolher essa demanda com aceitação e empatia, ele trabalha para construir uma relação que favoreça o desenvolvimento da maturidade psicológica e o fluxo expansivo da vida. Nessas situações, isso significa a obrigação de uma importante despedida: a da criança amedrontada diante do futuro.
***
Se você quiser se aprofundar nas discussões sobre a Psicologia do Luto, e em outros temas relacionados à Tanatologia, na Plataforma Ser Psicólogo você encontrará cursos de introdução nessas áreas. Já na Ser Psi Academy, você encontrará cursos de capacitação e de formação sobre o mesmo campo. Não perca a oportunidade de aprimorar seus conhecimentos e práticas sobre esse tema, cada vez mais relevante em nossa agenda profissional.
