Assim como outros conceitos da história dos saberes psicológicos, a noção de narcisismo também entrou na linguagem do dia a dia, e serve como referência para adjetivar pejorativamente em certo conjunto de comportamentos.
No contexto dos relacionamentos amorosos, por exemplo, fala-se muito em “perfis narcisistas”. Quando se trata das relações familiares ouvimos termos como “mães narcisistas”, ou “pais narcisistas”. Seguindo essa lógica, a generalização do uso desse termo permitiria falar em “políticos narcisistas”, em “médicos narcisistas” etc. Erich Fromm chegou a cunhar o termo narcisismo de grupo, para descrever as tendências de auto-exaltação presentes em certos grupos sociais. As possibilidades aqui seriam simplesmente infinitas.
Não é nosso objetivo proceder nenhuma espécie de “caça às bruxas semântica”, condenando esses usos cotidianos da linguagem. Pelo contrário, reconhecemos que eles fazem parte das possibilidades próprias à nossa comunidade linguística, e servem ao processo de produção de sentidos, que, como nos lembra a linguista e analista do discurso Eni Orlandi, é um imperativo impossível de contornar.
Mas apesar desse posicionamento, consideramos válido discutir esses usos do termo narcisismo, para saber em que medida eles não estão se referindo outro referente, neste caso à imaturidade. Para divisar esses termos, recorreremos à literatura científica sobre os transtornos da personalidade e sobre o conceito de imaturidade psicológica. Faremos isso sumarizando as principais diferenças entre esses dois construtos teóricos.
Vale iniciar essa reflexão afirmando que o narcisismo pode ser considerado um traço da personalidade, distribuído com magnitudes diferentes entre os diferentes indivíduos. Em outras palavras, todas as pessoas possuem seu próprio nível de inclinações narcisistas, algumas mais exacerbadas, outras menos.
Indo um passo além, diríamos que em certas magnitudes, o narcisismo pode ser mesmo positivo, contribuindo para a estruturação da autoestima, como indicam os trabalhos de Freud sobre os narcisismos primário e secundário. Além disso, nem todas as pessoas cujos traços de vaidade são acentuados podem ser rotuladas como narcisistas.
Para demarcar a linha divisória entre um narcisismo assim dito “funcional” e um disfuncional, o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V-TR), desde sua terceira versão de 1980, tem falado no Transtorno da Personalidade Narcisista (TPN). Como poderemos ver, quando nos referimos a esta entidade nosológica, estamos falando de uma formação da personalidade que está muito além de um padrão dominado pela vaidade e pela imaturidade psicológica.
Comecemos conferindo este último termo e nos questionando: o que é imaturidade psicológica?
A imaturidade psicológica é um estado subjetivo decorrente de um processo de formação da personalidade que se tornou precário em certos aspectos. Sabemos que a história da formação da pessoa está fortemente presente como um dos fatores que precipitam os transtornos da personalidade (TP) na vida adulta. Mas nem sempre uma formação precária resulta em padrões desadaptativos como são os TPs. A imaturidade psicológica também pode ser um dos resultados de uma formação subjetiva insuficientemente boa (Winnicott).

A imaturidade psicológica pode ter muitas expressões comportamentais. Os padrões de dependência emocional e de insegurança em relação a seus próprios potenciais, a incapacidade de resolver conflitos de modo criativo e realista, a manutenção de reações infantilizadas como respostas a situações de estresses, são exemplos desse estado subjetivo.
A imaturidade psicológica pode trazer prejuízos a todos os âmbitos da vida de uma pessoa. Contudo, as queixas mais frequentes têm a ver com as relações íntimas e amorosas. De fato, estas costumam ser muito afetadas pelos comportamentos imaturos, muitos deles adjetivados como “narcisistas”. Isso acontece porque pessoas imaturas realmente costumam apresentar níveis altos de toxicidade em suas relações amorosas. Costumam ser inseguras, controladoras, belicosas, e costumam desprezar a perspectiva emocional de seus parceiros.
Apesar disso, as pessoas psicologicamente imaturas tendem a ser mais suscetíveis ao aprendizado. De outro modo, ao mesmo tempo em que costumam ter suas relações íntimas prejudicadas pela imaturidade, geralmente saem-se bem em outras áreas da vida, não apresentando os mesmos prejuízos no trabalho, na família ou na relação com os pares. E aqui está o ponto-limite entre a imaturidade psicológica e os padrões narcisistas de personalidade, pelo menos daqueles elegíveis para o diagnóstico de TPN.
O que o DSM-V-TR descreve como um padrão de personalidade dominado por traços narcisistas é uma condição muito mais grave e prejudicial do que a imaturidade psicológica nos termos acima descritos. Nos termos do DSM-V-TR os padrões dominantes de narcisismo afetam todas as dimensões da vida, para além das relações amorosas. Conforme sua definição, o TPN é
Um padrão difuso de grandiosidade (em fantasia ou comportamento), necessidade de admiração e falta de empatia que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos.
Nessa definição temos três termos-chave: (1) grandiosidade, (2) necessidade de admiração e (3) falta de empatia.
Esses termos-chave nos ajudam a compreender ainda mais a diferença entre padrões narcisistas e imaturidade psicológica. Enquanto nesta última as relações são deterioradas pela falta de habilidade relacional do indivíduo imaturo, nos padrões narcisistas a raiz dos problemas está em comportamentos que partem de uma autoimagem inflada e necessitada de validão externa. Simplificando, enquanto na imaturidade psicológica o aspecto dominante é o déficit de certas habilidades pessoais, nos padrões narcisistas é um tipo autoimagem e suas consequências para as relações.
Quando adentramos na lista de características que o DSM-V-TR atribui a esse diagnóstico, o fosso entre narcisismo e imaturidade se expande. Das nove características listadas naquele manual, cinco são necessárias para o diagnóstico de TPN. São elas:
- Tem uma sensação grandiosa da própria importância.
- É preocupado com fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilho, beleza ou amor ideal.
- Acredita ser “especial” e único e que pode ser somente compreendido por, ou associado a, outras pessoas (ou instituições) especiais ou com condição elevada.
- Demanda admiração excessiva.
- Apresenta um sentimento de possuir direitos.
- É explorador em relações interpessoais.
- Carece de empatia: reluta em reconhecer ou identificar-se com os sentimentos e as necessidades dos outros.
- É frequentemente invejoso em relação aos outros ou acredita que os outros o invejam.
- Demonstra comportamentos ou atitudes arrogantes e insolentes.
Vale salientar que durante o exame clínico tais características devem ser consideradas como padronizadas, isto é, devem fazer parte do repertório comportamental da pessoa pelo menos desde o final da adolescência.
Como podemos notar pela lista de características acima, o padrão narcisista está relacionado a uma personalidade que se estruturou com base no sentimento interno de superioridade em relação aos outros. Mas, em lugar de uma autoestima que independe de validações externas, essa personalidade convive com o paradoxo de manter-se na dependência da validação dos outros. Isso pode sugerir que a autoimagem marcada pela superioridade seja parte da fantasia forjada por um self que, em seus níveis mais profundos, se sabe carente e dependente.
O aspecto predador do comportamento narcisista também lhe diferencia da imaturidade psicológica. Embora esta última possa ser responsável por um histórico de fracassos amorosos e de relações tóxicas, nada disso está relacionado a comportamentos de predação, de exploração ou de ausência de empatia. No TPN, por sua vez, as relações são deterioradas pela convicção de que as pessoas, por seu status de “inferioridade”, devem ser exploradas especialmente nos campos psicológico, sexual e material.
Geralmente, as pessoas marcadas por imaturidade psicológica tendem a experimentar mais o sofrimento que decorre dos seus fracassos pessoais. Isso abre a possibilidade para que haja aprendizado e a correção de certos padrões repetitivos, seja por meios formais como a psicoterapia, ou por meios informais e espontâneos. No TPN estamos falando de uma estrutura de personalidade muito mais rígida, mais resistente à mudança, e com menor nível de insight em relação a si e ao sofrimento dos outros.
Em síntese, podemos afirmar que tanto a imaturidade psicológica quanto o TPN são resultados indesejados do processo de formação da personalidade. Cada qual a seu modo, ambos tornam as relações humanas mais intrincadas e intoxicadas. Entretanto, por seu aspecto predador, no TPN parece haver repercussões mais amplas e maiores níveis de sofrimento causados a terceiros em diferentes âmbitos da vida.
Tanto para as pessoas com padrões genuinamente narcisistas, quanto para aquelas imaturas psicologicamente, a psicoterapia deverá ser o tipo de relação mais favorável ao desenvolvimento pessoal e à construção de padrões de personalidade mais saudáveis.
***
Se este tema lhe interessar mais profundamente, acesse à Plataforma Ser Psicólogo, pois nela você encontra uma trilha completa de cursos sobre cada um dos TPs, seguindo as categorias encontradas no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V-TR). Nestes cursos, exploramos aspectos históricos, conceituais, diagnósticos e terapêuticos dos TPs, além de oferecermos exemplos de casos clínicos para cada um deles.
Para aprofundamento:
Teoria do Big Five: Entenda os Cinco Traços da Personalidade Humana
Narcisismo e desamparo: algumas considerações sobre
as relações interpessoais na atualidade
