Por que ler Freud hoje?

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Curiosamente, tornei-me leitor de Freud antes mesmo de qualquer desejo de enveredar pela Psicologia. O ano era 2002, e eu precisava escrever uma monografia para concluir a graduação em Teologia. Decidi investigar as discussões que Freud empreendeu sobre a religião ao longo de sua obra. A partir dali, tornei-me seu leitor assíduo, embora jamais tenha tido a pretensão de me tornar psicanalista.

Mais de vinte anos depois, atuando como psicólogo e psicoterapeuta rogeriano, continuo acreditando que Freud é um autor incontornável para aqueles que ingressam no universo da ciência psicológica. Neste artigo, eu gostaria de sintetizar as razões que tornam a leitura da obra freudiana tão importante na atualidade, independentemente da orientação teórica professada pelo leitor entre as diferentes abordagens psicológicas.

Antes de tudo, eu gostaria de destacar as virtudes literárias de Sigmund Freud.

Sua leitura permanece relevante porque estamos falando de um autor que escrevia para ser compreendido por um público amplo, sem os preciosismos e hermetismos frequentemente associados à escrita acadêmica. Trata-se de alguém profundamente interessado em compreender o seu tempo e, ao mesmo tempo, permanentemente engajado no diálogo com a história, a antropologia e a filosofia – aspecto este evidenciado, entre outras coisas, pela recorrente presença da mitologia grega em sua obra.

As supostas dificuldades encontradas em seus textos estão, em grande medida, associadas a problemas de tradução. Tendo escrito originalmente em alemão, Freud teve sua primeira grande tradução para a língua inglesa na década de 1940. Incomodados com a simplicidade desse texto, muitos tradutores introduziram jargões acadêmicos e estrangeirismos com a finalidade de conferir maior “cientificidade” à obra. É essa, por exemplo, a origem de termos como id, ego e superego, que Freud jamais utilizou em seus escritos originais.

Atualmente, existem no Brasil importantes projetos de retradução da obra freudiana, realizados diretamente do alemão para o português. Neles, busca-se preservar a simplicidade e a comunicação direta características do texto freudiano. O deleite literário é uma das grandes forças dessa obra e não deve ser negligenciado quando buscamos compreender os motivos que ainda justificam a leitura desse autor em nossos dias.

Uma segunda razão diz respeito ao constante revisionismo presente em sua produção intelectual. As querelas com alguns dos discípulos pertencentes ao seu círculo mais próximo podem levar à conclusão precipitada de que estamos diante de uma figura arrogante e dogmática. Entretanto, apesar desses conflitos, a leitura sequencial da obra freudiana revela um esforço contínuo de autocorreção.

Não é raro que teorias psicológicas sejam lidas de forma dogmática.

Em certa medida, isso decorre da fragmentação do próprio campo psicológico. A multiplicidade de teorias concorrentes frequentemente produz, como efeito colateral, um apego excessivo à abordagem com a qual trabalhamos. Por isso, é importante testemunhar um autor que revisou sistematicamente suas próprias formulações, ampliando percepções, abandonando convicções e demonstrando, assim, que teorias científicas devem permanecer abertas à crítica e à autocorreção.

Uma terceira razão que faz de Freud um autor ainda indispensável é sua atenção contínua aos fenômenos da sociedade e da cultura. Renato Mezan explorou esse aspecto de maneira exemplar em seu importante livro Freud: pensador da cultura (1990). Ao mesmo tempo em que encontramos, na obra freudiana, uma dedicação radical à vida intrapsíquica, também nos deparamos com um empenho igualmente intenso em compreender o jogo de forças presente na história, na sociedade e na cultura.

Na verdade, Freud foi um dos primeiros autores do campo psicológico a insistir na tese de que a dicotomia entre indivíduo e sociedade é falsa. “Toda psicologia é social”, afirmaria no início do texto Psicologia das massas e análise do eu, de 1921. É essa mesma linha de argumentação que encontramos, por exemplo, em Mal-estar na civilização (1930), obra na qual Freud investiga as relações entre a dinâmica pulsional dos sujeitos e os interditos da cultura.

Além dos livros, os debates sobre temas sensíveis da agenda social e cultural também podem ser encontrados na vasta correspondência que Freud manteve com centenas de interlocutores. Vale mencionar, como exemplo, sua troca de cartas com Albert Einstein, especialmente a correspondência de 1933 intitulada Por que a guerra?. Nela, ambos discutem a contradição entre o evidente avanço técnico-científico do Ocidente e a flagrante precariedade de seu desenvolvimento ético e moral.

A religião, enquanto elemento central da cultura, também ocupou lugar de destaque na obra freudiana. Livros como O futuro de uma ilusão, Totem e tabu e Moisés e o monoteísmo discutem os fundamentos da moral ocidental a partir de temas como os tabus relacionados ao incesto, ainda que expressem o profundo pessimismo de Freud em relação às práticas religiosas, decorrente de seu ateísmo.

Como poucos autores no interior das ciências psicológicas do século XX, Freud inspira seus leitores a uma postura crítica e contextualizada.

De acordo com Rollo May, o reducionismo psicologista constitui a grande tentação à qual nós, psicólogos e psicólogas, estamos sempre a um passo de ceder. Freud é um autor que nos afasta dessa armadilha, convidando-nos, a todo momento, a pensar os sujeitos a partir das múltiplas determinações às quais estão submetidos.

Apostar na atualidade de Freud enquanto escritor não significa aderir à comunidade psicanalítica. Eu mesmo jamais me tornei psicanalista. O que se defende aqui é que, como poucos autores na história da Psicologia, Freud nos ensina a pensar de modo rigoroso, contextualizado e não reducionista.

Infelizmente, há muito reducionismo na Psicologia contemporânea. Mais recentemente, poderíamos acrescentar a presença de reducionismos assentados em bases pretensamente biológicas – neste caso, cerebrais –, como se as explicações sobre a complexidade humana pudessem ser deduzidas exclusivamente do conhecimento sobre o cérebro. Embriagados pelo afã de pertencer às ciências naturais, não é raro que tais reducionismos encontrem ampla adesão entre psicólogos e psicólogas de diferentes orientações teóricas.

Desafios dessa natureza se conectam a outros que marcam nosso tempo, caracterizado pela aceleração dos processos sociais e pelo imperativo da felicidade. Elizabeth Roudinesco explorou essa questão de maneira bastante perspicaz em Por que a psicanálise? (1999), demonstrando como o paradigma das ciências biológicas está intimamente correlacionado ao imperialismo da farmacologia em nossos dias.

E aqui, para concluir, apresento uma última razão para lermos Freud ainda hoje: sua concepção do sujeito como multideterminado por forças provenientes da biologia, da sociedade e da cultura. Em tempos nos quais a redução dessa complexidade às suas determinações psicológicas e cerebrais se torna cada vez mais evidente, o texto freudiano permanece como um convite à sensatez – mesmo para aqueles que não são psicanalistas.

***

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Além disso, na edição de junho o Clube do Livro da Ser Psicólogo lerá o texto Mal-estar na civilização, com a coordenação do prof. dr. Paulo Nascimento.

Portanto, não perca esta excelente oportunidade de conhecer melhor esse campo, ampliar seus repertórios teóricos e expandir suas lentes de leitura da realidade.

Te vejo nas aulas !!!

Para aprofundamento

Pulsão de Vida e Pulsão de Morte: Entre Eros e Thanatos

Por que ainda ler Freud?

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Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
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