Porque o ChatGPT não pode ser seu terapeuta

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Já é quase um lugar comum a afirmação de que a saúde mental no Brasil vai de mal a pior. Depois da pandemia de Covid-19 esse tópico ganhou uma relativa notoriedade nos grandes meios de comunicação de massa, nas redes sociais, e nas conversas do cotidiano. O país que sempre ostentou os codinomes de “país do carnaval”, de “país do samba” e de “terra da alegria”, tem se descoberto como o país da depressão, da ansiedade patológica e de outras formas de sofrimento emocional.

Os dados epidemiológicos o confirmam. Entre os países signatários da Organização Mundial de Saúde (OMS), estamos no topo em relação àqueles com os maiores índices de diagnósticos dos chamados transtornos de ansiedade. Segundo um levantamento feito pelo Ministério Público do Trabalho em 2025, no ano anterior mais de 540.000 pessoas haviam dado entrada em pedidos de afastamento do trabalho em função de problemas de saúde mental.

Vale dizer que apesar da importância desses dados para o desenvolvimento de políticas públicas, eles não são um retrato fiel da realidade por tratar-se de dados sabidamente subnotificados. Como sabemos por meio da literatura científica acerca do tema, as estratégias utilizadas pelos sujeitos para lidar com diferentes formas de adoecimento são plurais, e nem sempre têm a ver com os serviços de saúde (públicos ou privados).

Nas últimas décadas a Internet abriu um campo vastíssimo de novas possibilidades quando se trata do autocuidado em saúde mental. Contudo, ao mesmo tempo em que não podemos negar a radicalização do acesso à informação, precisamos também reconhecer que novos perigos tomaram conta do dia a dia de muitas pessoas. O autocuidado muitas vezes se traduz em autoavaliação, em autodiagnóstico, e não menos comum, em automedicação. A atual febre do uso não-prescrito de sedativos-hipnóticos como o Zolpidem é um exemplo muito convincente desses perigos.

É nesse contexto que tomamos conhecimento de um novo dado relacionado com a saúde mental em nosso país: cerca de 12 milhões de brasileiros e brasileiras fazem uso de ferramentas de inteligência artificial (IA) com finalidades ditas terapêuticas. Esses dados foram levantados pela agência de comportamento Talk Inc, e, segundo ela, metade desse público utiliza o ChatGPT em sua busca por suporte para questões emocionais.  

Mas chatbots como o ChatGPT e outros semelhantes podem cumprir o papel de psicoterapeutas?

No ano de 2025 o Conselho Federal de Psicologia (CFP) publicou dois documentos sobre o tema. O primeiro chama-se Nota de posicionamento do Conselho Federal de Psicologia sobre Inteligência Artificial e Psicologia, cujo objetivo, naquele momento, era oferecer à sociedade um primeiro posicionamento da entidade sobre o tema. No mesmo ano foi publicada a cartilha intitulada Chatbots, Inteligência Artificial e sua saúde mental: um guia para navegar com mais segurança na nova fronteira digital, com o objetivo de oferecer aos profissionais da Psicologia e ao público em geral orientações para uma utilização saudável dos recursos digitais em demandas de saúde mental.

Nesses documentos, especialmente na cartilha, o CFP enumera um conjunto de riscos (alguns deles com potencial iatrogênico) associados ao uso de chatbots para finalidades terapêuticas: “indução a comportamentos destrutivos”, “conselhos perigosos”, “endosso a ideias nocivas”, “validação de delírios”, “reforço de estereótipos”, “cuidado de qualidade inferior” e “aprofundamento de desigualdades”. Na mesma cartilha o CFP conclui que “o aspecto mais importante a destacar é o valor insubstituível do cuidado humano”.

Dando um passo além da necessária discussão levantada pelo CFP, gostaríamos de usar alguns argumentos para ratificar porque os chatbots não podem substituir a psicoterapia. Para fazê-lo, vamos recuperar um importante construto teórico ligado ao trabalho de Carl Rogers, e que, segundo cremos, pode ser generalizado e aplicado a qualquer forma de psicoterapia. Estamos nos referindo ao conceito de relações de ajuda.

Para Rogers, as relações de ajuda nem sempre são formais, e podem estar presentes em todo corpo social: entre amigos, entre familiares, no sistema educacional etc. Para ele, uma relação de ajuda é aquela “na qual pelo menos uma das partes procura promover na outra o crescimento, o desenvolvimento, a maturidade, um melhor funcionamento e uma maior capacidade de enfrentar a vida”. Ou ainda, trata-se de um tipo de relação que promove “uma maior expressão e uma utilização mais funcional dos recursos internos do indivíduo”. Por razões óbvias, a psicoterapia é pensada por Rogers como uma das formas mais importantes de relações de ajuda, apesar do seu caráter formal.

Mas a essência de uma relação de ajuda, segundo esse autor, não está nos conteúdos compartilhados, mas na maneira como eles o são. Para além dos conteúdos compartilhados, a relação de ajuda promove o amadurecimento porque sua dinâmica acontece em um estilo psicologicamente favorável. São as conhecidas condições facilitadoras, entre as quais estão a consideração empática, a autenticidade e a congruência, a aceitação incondicional e não julgadora, e uma dose consciente de não-diretividade. Aplicando isso à terapia, diríamos que sua força estaria presente com muito mais frequência nas atitudes terapêuticas do que nos conteúdos ali comunicados.

É justamente isso que explica por que psicoterapeutas menos perspicazes tecnicamente, mas habilidosos relacionalmente, consigam criar vínculos terapêuticos muito poderosos. E aqui chegamos ao um ponto crucial desta reflexão. Na maioria dos casos, a qualidade da vinculação terapêutica é mais potente para o processo do que as técnicas empregadas. E é justamente por isso que o ChatGPT não pode performar como um bom psicoterapeuta.

Diferente de qualquer chatbot, programado para dar respostas rápidas e selecionadas por um algoritmo, apenas um ser humano conscientemente disposto a se vincular a outro ser humano com empatia, autenticidade e acolhimento incondicional, pode constituir uma autêntica relação de ajuda. O chatbot consegue mimetizar muito bem a sistematização de informações úteis, e oferecê-las às pessoas em seus respectivos contextos. Mas a relação de ajuda psicoterapêutica precisa de muito mais. Além do tempo, dos saberes e das técnicas, ela precisa da presença e do vínculo, dos intervalos e do confronto.

Para simplificar ainda mais: o ChatGPT não pode oferecer uma autêntica relação de ajuda na forma de uma psicoterapia porque ele é incapaz de proporcionar o tipo de vínculo que esse processo exige. E como afirmam importantes autores que se debruçam sobre o campo, a qualidade do vínculo está diretamente correlacionada com o termo que uma psicoterapia terá, independente da abordagem teórica ou das técnicas empregadas.

Mas, o que podem os chatbots nesse quesito?

De acordo com a cartilha Chatbots, Inteligência Artificial e sua saúde mental do CFP, os chatbots “são programados para serem agradáveis, concordantes e para manter o usuário engajado”. Como afirma o próprio CFP, “em uma conversa casual isso pode ser positivo. No entanto, em um contexto de saúde mental, essa tendência de validar acriticamente tudo o que o usuário diz se torna uma falha fatal”.

Ser “agradável” e “concordante” não é o mesmo que ser empático. Em terapia, a consideração empática é a habilidade de tomar o quadro de referência cognitivo da própria pessoa (em lugar do nosso!) como ponto de partida em todo o processo. Mas diferente da concordância passiva, um dos papéis do terapeuta é devolver ao paciente certos conteúdos afim de que possam ser revistos, aprofundados e reelaborados.

Mas a despeito de tudo isso, não excluímos a possibilidade de que recursos como o ChatGPT possam ser úteis em algumas situações de conflito emocional. Contudo, penso que eles devem ser encarados como estratégias de coping, descritas pela literatura científica como um conjunto heterogêneo de esforços empreendidos pelos sujeitos com a finalidade de restaurar o equilíbrio emocional. Há muitos exemplos de estratégias de coping, aplicados a variadas situações. Alguns deles são as práticas religiosas, a meditação, a prática de esportes, a escrita em diários, dentre outros. Produzem certo alívio e mitigam prejuízos emocionais que poderiam ser maiores na ausência completa de tais estratégias.

Mas a psicoterapia, enquanto uma autêntica relação de ajuda, quer muito mais que isso, e é por essa razão que o ChatGPT não pode ser o seu psicoterapeuta.  

Para aprofundamento:

CFP divulga posicionamento sobre Inteligência Artificial no contexto da prática psicológica

Chatbots, Inteligência Artificial e sua Saúde Mental: um guia para navegar com mais segurança na nova fronteira digital

Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável

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Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
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Glaucio Ovidio
Glaucio Ovidio
15/01/2026 09:19

Muito rico o texto, bem explicado.

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