Precisamos de psicólogos…

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Provavelmente, você chegou a este artigo motivado pelo sentido mercadológico que pode haver em seu título: Precisamos de psicólogos…

Não, este não é um anúncio sobre disponibilidade de vagas de emprego. Esta é uma reflexão sobre a qualidade da formação profissional de uma das carreiras que mais crescem na atualidade e que ocupa um lugar importante entre as profissões dedicadas aos cuidados em saúde mental. Se você tiver disposição para seguir em frente, descobrirá que este artigo é, na verdade, um manifesto.

Pensando nas características da população brasileira e nas demandas de saúde mental que temos atualmente em nosso país, que tipo de psicólogos são mais necessários?

Em primeiro lugar, precisamos de psicólogos que não economizem quando se trata de investir em sua formação. Precisamos de psicólogos que não apenas gostem de estudar, mas que organizem sua rotina de modo a reservar tempo suficiente para o aprofundamento teórico constante. Precisamos de psicólogos curiosos, que não fiquem estagnados no passado e que não se cansem de buscar as melhores e mais atuais referências.

Precisamos de psicólogos comprometidos com a formação continuada. Esses psicólogos são epistemologicamente inconformados. Carregam, sem cessar, a sensação de incompletude formativa. Sabem que os anos de formação universitária foram insuficientes e se comportam como se nunca estivessem, de fato, formados.

Em segundo lugar, precisamos de psicólogos que sejam entusiastas das políticas públicas e dos papéis que a Psicologia pode desempenhar nesse contexto. Precisamos de psicólogos conscientes de que as políticas públicas constituem, hoje, um dos principais campos de empregabilidade para essa categoria. Psicólogos que se interessem em aprofundar seus conhecimentos em áreas como saúde, segurança pública, educação escolar e assistência social, por exemplo.

Em consonância com isso, precisamos de psicólogos que tenham clareza sobre seu compromisso ético-político e sobre como ele pode ser exercido no interior das políticas públicas. Dessa forma, precisamos de psicólogos que gostem muito de gente, mas que também estejam informados sobre as diferenças de classe, gênero, sexualidade etc. existentes entre as pessoas e sobre como esses diferentes lugares sociais podem afetar a qualidade de vida de cada indivíduo.

Desse modo, precisamos de psicólogos dispostos a adaptar sua linguagem à linguagem das pessoas, especialmente daquelas que fazem parte de grupos socialmente minoritários. Precisamos de psicólogos que conheçam o passado elitista da Psicologia brasileira e tenham disposição para não mais reproduzi-lo. Ou seja, precisamos, cada vez mais, de psicólogos que trabalhem na perspectiva dos Direitos Humanos.

Em terceiro lugar, precisamos de psicólogos atentos ao perigo de alguns reducionismos muito comuns nessa categoria profissional. Dessa forma, precisamos de psicólogos que gostem de compreender as determinações biológicas do comportamento humano, sem reduzi-lo a elas.

Precisamos de psicólogos que saibam muito sobre o sistema nervoso central, sobre anatomia geral, sobre neuroanatomia funcional e sobre a ação dos neurotransmissores, mas que ainda sejam capazes de não reduzir a complexidade das condutas humanas a nenhum desses elementos isoladamente.

Precisamos de psicólogos que consigam enxergar sempre para além da individualidade. Psicólogos conscientes de que toda Psicologia é social e que não reduzam os sujeitos a entidades psicológicas isoladas de sua história e de sua cultura. Ou seja, precisamos de psicólogos que resistam à tentação de psicologizar aquilo que tem raízes contextuais.

Precisamos de psicólogos que, independentemente de onde atuem, compreendam que toda pessoa traz consigo os efeitos da vida social, assim como os efeitos de sua história e de suas características peculiares. Psicólogos que, ao pensar o sofrimento psíquico, consigam compreendê-lo em sua multideterminação e que não desconsiderem fatores como moradia, trabalho, acesso a serviços de saúde e estilo de vida.

Em quarto lugar, precisamos de psicólogos que saibam que toda Psicologia é política, mesmo quando não é partidária. Psicólogos que entendam que, antes de tudo, a saúde mental também é uma questão política. Por exemplo, precisamos de psicólogos para quem a redução da jornada de trabalho semanal seja compreendida como uma medida de investimento em saúde mental.

Precisamos de psicólogos que saibam que, quanto mais segura for uma comunidade, mais condições haverá para a saúde mental de seus moradores; quanto mais creches em tempo integral estiverem disponíveis no território, mais condições haverá para a saúde mental das mulheres e mães; quanto menos racismo e homofobia houver, melhores serão as condições de saúde mental; e quanto melhor forem a remuneração e as condições gerais de trabalho, mais saúde mental haverá entre o povo.

Em último lugar, precisamos de psicólogos mais integrativos do que dogmáticos. Psicólogos mais interessados nos fatores comuns entre as diferentes abordagens teóricas do que naqueles que vivem para alimentar narcisismos de grupo. Precisamos de psicólogos que pensem a Psicologia como uma ciência aberta, autocrítica e autocorretiva. Que não se relacionem com suas teorias preferidas como se elas fossem fundamentalismos religiosos.

Precisamos de psicólogos que não se enxerguem como donos da verdade sobre a alma humana. Que tenham a humildade de admitir que a Psicologia, apesar de seus incríveis avanços, ainda sabe pouco sobre seus objetos de estudo. Psicólogos que reconheçam a existência de conhecimentos profundos sobre a condição humana na filosofia, na sociologia, na antropologia e nas artes em geral e que tenham coragem para integrar esses saberes ao seu trabalho.

Precisamos de psicólogos mais empáticos e menos protocolares. Mais fiéis às necessidades das pessoas do que às suas teorias e técnicas preferidas. Mais apaixonados pela oferta de intervenções eficazes do que pelo marketing digital. Mais interessados em ser do que em parecer ser.

***

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Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
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