Psicologia e Literatura: integrando ciência e arte no exercício profissional

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O lançamento recente do filme Odisseia nos cinemas reacendeu o debate sobre os fundamentos intelectuais da cultura ocidental. Ilíada e Odisseia, poemas épicos atribuídos a Homero, são textos que, de fato, ajudaram a plasmar nossa cultura, antes mesmo da influência da Bíblia cristã. Em Ilíada, os versos remetem aos anos finais da Guerra de Troia. Já Odisseia narra a saga de Odisseu (ou Ulisses), cujo retorno a Ítaca se estenderia por vinte anos após o término da guerra.

A literatura é uma das formas mais antigas de arte. Existem textos literários cuja envergadura contribuiu decisivamente para moldar o pensamento ocidental, muito antes da consolidação do conhecimento científico. Hoje, entende-se que a literatura não é apenas uma forma de entretenimento. Muito mais do que isso, ela constitui uma modalidade de produção de conhecimento, dotada de estatuto epistemológico próprio, na qual se encontram concepções profundas acerca da natureza humana.

Ao longo de sua história, o campo psi aproximou-se relativamente cedo da literatura. Sigmund Freud (1856-1939), por exemplo, realizou análises de importantes obras literárias, como as de Dostoiévski. Lev S. Vigotski (1896-1934), por sua vez, iniciou sua trajetória como pesquisador em Psicologia debruçando-se sobre a obra de William Shakespeare.

É preciso, contudo, fazer uma ressalva.

Esses autores tomaram a literatura como objeto de investigação, e não como uma fonte direta de conhecimento sobre a experiência humana. Para eles, a análise das obras literárias permitia acessar determinados aspectos do funcionamento psíquico, do mesmo modo que outras atividades humanas, como a religião, a moral e as demais formas de arte.

Em uma perspectiva distinta, o filósofo Edgar Morin (1921-2026) defendeu a tese de que a arte em geral, e a literatura em particular, são capazes de conferir sentido à experiência humana de um modo que nem mesmo a ciência consegue alcançar. A literatura, portanto, não seria apenas uma atividade que revela indiretamente aspectos do psiquismo humano, mas uma forma legítima pela qual compreendemos a nós mesmos e nossa presença no mundo.

Em A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento, Morin afirma:

A longa tradição dos ensaios – própria de nossa cultura, desde Erasmo, Maquiavel, Montaigne, La Bruyère, La Rochefoucauld, Diderot e até Camus e Bataille – constitui uma farta contribuição reflexiva sobre a condição humana. Mas também o romance e o cinema nos oferecem o que é invisível nas ciências humanas [grifo nosso]; estas ocultam ou dissolvem os caracteres existenciais, subjetivos, afetivos do ser humano, que vive suas paixões, seus amores, seus ódios, seus envolvimentos, seus delírios, suas felicidades, suas infelicidades, com boa e má sorte, enganos, traições, imprevistos, destino, fatalidade… (Morin, 2010, p. 43-44).

Com essa posição, Edgar Morin defende que os métodos científicos são incapazes de esgotar a descrição das múltiplas expressões da condição humana. Há dimensões da existência que só podem ser acessadas pela sensibilidade da arte e descritas pela linguagem estética. A dimensão poética da existência humana, por exemplo, somente pode ser plenamente apreendida e expressa pelas artes, especialmente pela poesia.

Desse modo, Morin (2010, p. 45) entende que “em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição humana”. Para o filósofo, deixamos de perceber isso em razão da cegueira produzida pelo paradigma epistemológico cartesiano, marcado pela fragmentação e pelo reducionismo.

Há casos na literatura em que as próprias práticas científicas e suas motivações são colocadas em questão. É o que encontramos, por exemplo, em O Alienista, de Machado de Assis (1839-1908). Muito antes do advento da reforma psiquiátrica, a novela utilizava a sátira e a ironia para denunciar o alienismo da psiquiatria de sua época e suas pretensões de controle social.

Além disso, a literatura foi responsável por revelar aspectos da cultura brasileira dificilmente acessíveis por outros meios. Merece destaque, nesse sentido, o regionalismo de autores da primeira metade do século XX, cuja descrição das entranhas da vida nordestina permanece insubstituível. São fundamentais, nesse contexto, obras como Os Sertões (Euclides da Cunha), O Quinze (Rachel de Queiroz), Vidas Secas (Graciliano Ramos), Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto) e Grande Sertão: Veredas (João Guimarães Rosa), entre outras.

É por essas razões – e por tantas outras que aqui não foram mencionadas – que a literatura deveria integrar a formação humanística e as lentes por meio das quais psicólogos e psicólogas compreendem o mundo e o ser humano.

Para esses profissionais, ela chega mesmo a assumir um valor instrumental e pragmático.

A literatura pode ser utilizada como um vasto reservatório de metáforas para diferentes modalidades de intervenção, como a clínica individual, a psicoeducação, a docência e a comunicação pública.

Diferentemente da linguagem frequentemente hermética, abstrata e distante da ciência – inclusive da própria Psicologia –, a linguagem artística tende a despertar identificação e acolhimento. Embora seja grandemente fomentada pela imaginação, a experiência literária possui enorme potencial para suscitar reconhecimento, ampliar a compreensão de si e favorecer processos de transformação.

Lembro, com saudosismo, das rodas de conversa sobre Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que facilitei em um Centro de Atenção Psicossocial especializado no cuidado de pessoas com uso abusivo de álcool e outras drogas (Caps AD). De forma rápida e espontânea, a saga da família de Fabiano tornou-se objeto de identificação para o grupo de usuários, que nela reconhecia aspectos de sua própria trajetória no enfrentamento do alcoolismo.

Nos últimos anos, no Brasil, a chamada Psicologia Integrativa tem conquistado força e visibilidade entre psicólogos e psicólogas. Com foco predominantemente nas práticas clínicas, esse movimento enfatiza os elementos comuns às diferentes abordagens psicoterapêuticas. Por meio de um ecletismo tecnicamente orientado, a Psicologia Integrativa sustenta que é possível superar as diferenças entre as abordagens psicológicas, articulando conceitos e técnicas em benefício dos clientes da psicoterapia.

Em sintonia com esse esforço integrativo – que consideramos relevante e oportuno –, reconhecemos a necessidade de ampliar esse movimento para incluir outros campos de reflexão, especialmente aqueles pertencentes às Humanidades. Somente assim poderemos superar efetivamente os reducionismos herdados da ciência moderna, historicamente assentada sobre uma epistemologia reducionista e fragmentadora.

Reconhecemos a importância da Arteterapia e seu valor como modalidade de intervenção psicológica. Entretanto, não é uma nova forma de Arteterapia o que estamos propondo.

O que sugerimos, em primeiro lugar, é que psicólogos e psicólogas integrem a literatura à sua formação humanística, permitindo-se ser atravessados por ela em nível pessoal e existencial. Em segundo lugar, propomos que a literatura faça parte de suas intervenções profissionais como uma fonte direta de conhecimento sobre determinadas facetas da experiência humana que permanecem invisíveis à linguagem científica. Em terceiro lugar, sustentamos que esse patrimônio de conhecimento sobre a natureza humana possui potencial transformador, independentemente do contexto em que seja mobilizado.

Diferentemente de muitas outras profissões, a Psicologia não pode ser reduzida à aplicação de protocolos. O ser humano, seu principal objeto de trabalho, é irredutível a isso. Mais do que qualquer outro animal, ele é profundamente sensível à produção de significados. Vive e age como um ser de significação das mais diversas maneiras, sendo a ciência apenas uma delas. É precisamente isso que faz da literatura uma parceira tão potente na tarefa permanente de reinvenção do humano.

Referência bibliográfica

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Tradução de Eloá Jacobina. 17. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010

Para aprofundamento

O acesso às artes e ao cinema como política de saúde mental no Brasil

Psicologia da Literatura e Psicologia na Literatura

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Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
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