Quem é psicólogo ou psicóloga e frequenta as redes sociais depara-se, todos os dias, com anúncios variados nos quais são oferecidas fórmulas para aumentar o número de pacientes e, consequentemente, os rendimentos auferidos. Algumas das interpelações mais constantes nesses anúncios dizem:
“Se você não fatura pelo menos R$ 20 mil por mês, tem alguma coisa errada com você”.
“Você vai continuar do mesmo jeito, sendo que tem colegas seus ganhando R$ 50 mil por mês com Psicologia?”
“Compre a minha fórmula de posicionamento digital e eu te ensino o passo a passo para ganhar seu primeiro milhão em menos de um ano”.
“Posso te ajudar a encher a sua agenda de atendimentos sem que você sequer precise aparecer”.
“Aprenda a viver como um psicólogo no digital e alcance todos os seus objetivos financeiros em pouco tempo”.
Essas chamadas representam alguns dos muitos exemplos de uma tendência consolidada há alguns anos e que encontra grande aceitação entre profissionais de Psicologia espalhados pelo país. Em síntese, o que esses apelos nos dizem é que o exercício profissional não pode ser encarado como simples meio de subsistência, mas como plataforma para uma vida economicamente triunfante.
Em Sociedade do cansaço, o filósofo Byung-Chul Han se refere ao “sujeito de desempenho” como o grande protagonista do campo social em nossos dias. O sujeito de desempenho é um empreendedor e explorador de si mesmo. Ele recusa os vínculos de trabalho tradicionais e, sob o mote da liberdade, doa o máximo de si em busca de resultados, sucesso e afirmação, dentro da lógica da conquista e da prosperidade material.
Pensado nesses termos, o sujeito de desempenho pode estar presente em qualquer área de atividade profissional. E, diante das interpelações que citamos acima, percebemos que também as práticas profissionais da Psicologia têm sido fortemente interpeladas pelo discurso do desempenho, que constitui uma forma alternativa de nos referirmos ao discurso do capitalismo neoliberal.
Isso nos permite dizer que os psicólogos de desempenho compõem o cenário atual como uma possibilidade de atuação nesse campo. Com base nisso, questionamos: que impactos isso pode eventualmente produzir sobre o tipo de serviço que é oferecido por esses profissionais à sociedade?
Colocamos esse questionamento tomando como referência aquilo que está preconizado como princípios fundamentais para a atuação em Psicologia no Código de Ética dessa profissão. Dentre os sete princípios apresentados em seu preâmbulo, o Código de Ética afirma que:
I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
(…)
III. O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural.
Em primeiro lugar, a digitalização dos serviços em Psicologia contribui para o rebaixamento do valor de muitas outras formas de atuação, algumas delas resultantes de lutas históricas muito caras a esse campo. Pelo menos no Brasil, nas últimas décadas, tais lutas abriram para a Psicologia muitas oportunidades nas políticas públicas, em áreas como a saúde coletiva, a assistência social, a educação escolar e o sistema de justiça.
Os psicólogos de desempenho tendem a diminuir o valor desses campos de atuação justamente porque não se guiam pelos valores éticos acima citados, mas pela ética do mercado. Com isso, essa forma de atuação produz outro efeito não menos importante.
Ao trocar uma atuação baseada na ética social por outra fundamentada na ética de mercado, os psicólogos e psicólogas contribuem para perpetuar um antigo dilema ligado a essa profissão no Brasil: o elitismo. Por exemplo, enquanto nas políticas públicas os serviços de Psicologia são disponibilizados gratuitamente à população em geral – e, de modo especial, aos estratos economicamente desfavorecidos –, aqueles oferecidos pelos psicólogos de desempenho só podem alcançar quem tem condições de pagar por eles.

É importante salientar que essas mesmas interpelações são muito mais frequentes no âmbito da atuação clínica individual, embora outros campos, como a mentoria e a supervisão profissional, também estejam em seu escopo. De todo modo, isso também representa uma redução das possibilidades de atuação, confinando os profissionais em uma área específica.
Vale também nos questionarmos acerca da qualidade dos serviços ofertados sob a lógica do desempenho. E aqui surge a pergunta: o imperativo da quantidade pode significar uma redução da qualidade dos serviços psicológicos? Pensemos no caso específico da psicoterapia.
Como sabemos, o trabalho em psicoterapia não se encerra ao final de cada sessão.
Apesar das tecnologias hoje disponíveis, responsáveis pela organização de prontuários e de outras tarefas burocráticas ligadas a esse trabalho, seu bom exercício depende ainda de outros investimentos que exigem tempo e a devida dedicação humana. Dentre eles, destacamos a psicoterapia à qual devem se submeter os próprios profissionais, o estudo dos casos clínicos atendidos e a supervisão de seu trabalho por um colega de profissão com maior bagagem e experiência.
É difícil pensar como um trabalho com essas exigências possa ser realizado de modo massificado sem que isso afete significativamente sua qualidade.
Uma das evidências científicas mais atuais sobre o trabalho em psicoterapia indica que a qualidade da relação entre o terapeuta e seu cliente é um dos fatores mais decisivos para o andamento do processo. Com base nisso, seria necessário discutirmos quantos clientes podem ser atendidos semanalmente por um mesmo psicoterapeuta, de modo que não haja redução da qualidade dos serviços ofertados.
Voltando a Byung-Chul Han, também consideramos necessário refletir sobre como a lógica do desempenho pode afetar a saúde e a qualidade de vida dos próprios profissionais da Psicologia.
Para o filósofo coreano, vivemos em uma época marcada pela grande disseminação de adoecimentos como a depressão, o Burnout e o TDAH. Para Han, isso se deve ao “excesso de positividade” próprio de nosso tempo. Com esse termo, ele se refere justamente aos discursos que nos incitam a produzir mais, trabalhar mais, empreender mais, lucrar mais e consumir continuamente os conteúdos disponíveis no mundo digital.
No afã por resultados financeiros cada vez maiores, os sujeitos de desempenho vão se tornando paulatinamente mais vulneráveis ao colapso psíquico. E é justamente por isso que a “sociedade do cansaço” é também a “sociedade do doping”, pois o consumo de psicofármacos – devidamente prescritos ou não – passa a ser um comportamento naturalizado.
O que nos impede de pensar que essa dinâmica também afete os psicólogos e psicólogas que aderem à lógica do desempenho?
O sujeito de desempenho é aquele que aceita arriscar sua saúde e sua qualidade de vida em nome da alta performance profissional e da maximização de seus resultados. Nesse sentido, o colapso do corpo e da saúde surge como um grito, articulado para nos convencer acerca dos limites dessa ideologia.
Para aprofundamento
O sujeito de desempenho e a super-psicologia: uma resenha de ‘Sociedade do cansaço’ (Byung-Chul Han)
Síndrome de Burnout em Psicólogos: Revisão Sistemática da Literatura
