A teoria das pulsões formulada por Sigmund Freud representa uma das viradas mais radicais na compreensão do funcionamento psíquico. Em Além do Princípio do Prazer, Freud propõe que a vida psíquica não é regida apenas pela busca de prazer, mas também por uma tendência paradoxal à repetição e à destruição. Surge então a formulação das pulsões de vida (Eros) e de morte (Thanatos), inaugurando uma compreensão mais complexa da condição humana.
Posteriormente, Jacques Lacan retoma essa dualidade e a radicaliza ao introduzir o conceito de gozo, aprofundando o entendimento daquilo que, no sujeito, insiste para além do prazer e da autopreservação.
Pulsão: o motor da vida psíquica
Para Freud, a pulsão é um conceito-limite entre o somático e o psíquico. Não se trata de instinto biológico puro, mas de uma força constante que parte do corpo e exige trabalho psíquico. A pulsão possui fonte, pressão, finalidade e objeto. Ela não é comportamento, mas energia que impulsiona o sujeito em direção à satisfação.
Inicialmente divididas entre pulsões do eu e pulsões sexuais, as pulsões são reorganizadas após Freud perceber que certos fenômenos clínicos — como a compulsão à repetição — não podiam ser explicados apenas pelo princípio do prazer.
Pulsão de Vida (Eros): ligação, construção e simbolização
A pulsão de vida representa as forças de ligação, união e conservação. Eros é responsável pela construção de vínculos, pela sexualidade em sentido ampliado, pela criatividade e pela capacidade de investir no mundo.
Ela promove integração, complexificação e manutenção da vida. No plano psíquico, manifesta-se como movimento de ligação entre representações, como capacidade de simbolização e elaboração. No plano social, aparece na formação de laços afetivos, instituições, cultura e produção simbólica.
Eros é a força que une.
Pulsão de Morte (Thanatos): desligamento, repetição e destruição
Freud introduz a pulsão de morte ao observar que o sujeito não busca apenas prazer. Muitas vezes, ele repete experiências dolorosas, revive traumas e insiste em padrões que produzem sofrimento.
A pulsão de morte aponta para uma tendência à redução absoluta de tensão, ao retorno ao estado inorgânico. Ela é força de desligamento, fragmentação e destruição. Sua expressão pode aparecer na agressividade, na violência, no sadismo, no masoquismo e em comportamentos autodestrutivos.
Contudo, a pulsão de morte raramente atua isoladamente. Ela está quase sempre entrelaçada com Eros. A agressividade, por exemplo, pode ser vista como pulsão de morte desviada para fora, a serviço da preservação do eu.
O desenvolvimento do conceito de pulsão de morte na obra de Freud
O Gozo em Lacan: o ponto de articulação entre Eros e Thanatos
É aqui que o conceito de gozo, desenvolvido por Lacan, se torna fundamental para aprofundar a teoria freudiana.
O gozo não é prazer. Enquanto o prazer regula e reduz a tensão, o gozo ultrapassa o limite do prazer. Ele é excesso. É uma satisfação paradoxal que pode incluir sofrimento.
Se, em Freud, a pulsão de morte explica a repetição dolorosa, em Lacan o gozo nomeia a experiência subjetiva dessa repetição. O sujeito não apenas sofre; ele encontra ali uma forma de satisfação inconsciente.
O gozo está ligado ao corpo, mas ao corpo marcado pela linguagem. Para Lacan, o sujeito se constitui ao entrar no campo simbólico. Esse ingresso implica uma perda estrutural — algo da experiência plena é irremediavelmente perdido. O gozo surge como tentativa impossível de recuperar essa completude.
Por isso o sujeito repete. Ele não busca simplesmente prazer; ele busca reencontrar algo que estruturalmente falta.
Lacan e os 3 Quadros Clínicos da Psicanálise
Gozo, sintoma e repetição
O sintoma, nessa perspectiva, é uma forma de gozo. O sujeito sofre com ele, mas também se satisfaz por meio dele. É por isso que abandonar um sintoma não é simples: ele organiza o modo singular de gozar.
A compulsão à repetição descrita por Freud ganha, em Lacan, uma dimensão estrutural. O sujeito gira em torno de uma cena fantasmática que organiza seu desejo. Ele goza nessa cena, mesmo que ela produza dor.
A autossabotagem, os relacionamentos destrutivos, a repetição de fracassos — tudo isso pode ser compreendido como modos específicos de gozo, nos quais pulsão de morte e pulsão de vida se entrelaçam.

Gozo fálico e gozo além do falo
Nos desenvolvimentos tardios de sua obra, Lacan diferencia o gozo fálico daquele que chama de gozo suplementar.
O gozo fálico é mediado pela linguagem, regulado pela lógica da castração e do significante. Ele é limitado, organizado simbolicamente.
Já o chamado gozo feminino — que não se refere ao sexo biológico, mas a uma posição estrutural — aponta para um além da regulação fálica, um gozo não totalmente capturado pelo simbólico. Trata-se de um gozo não-todo, que escapa à significação completa.
Essa formulação amplia a teoria das pulsões ao mostrar que o gozo não se reduz à destruição, mas também pode apontar para experiências intensas que excedem o campo do significante.
Civilização, agressividade e mal-estar
Em O Mal-Estar na Civilização, Freud afirma que a cultura se constrói sobre a renúncia pulsional, sobretudo da agressividade. A sociedade exige contenção da pulsão de morte, e esse processo produz sofrimento.
Lacan, por sua vez, demonstra que o gozo não desaparece com a lei — ele se desloca. Muitas vezes, a própria proibição intensifica o gozo. A transgressão, a culpa e a repetição podem se articular como formas de satisfação.
Na contemporaneidade, o imperativo já não é apenas reprimir, mas “gozar”. O comando social de desempenho e felicidade produz novas modalidades de sofrimento, pois o gozo, por definição, não pode ser plenamente alcançado.
A teoria das pulsões de vida e de morte revela que o ser humano é atravessado por forças de ligação e de destruição. Com Lacan, compreendemos que essas forças não operam apenas como tendências abstratas, mas como modos concretos de gozo.
Entre Eros e Thanatos, o sujeito se constitui na tensão entre desejo, falta e repetição. O gozo é o ponto em que essa tensão se encarna na experiência singular de cada um.
Compreender essa dinâmica é fundamental para a clínica psicanalítica e para a leitura crítica da cultura. Afinal, o humano não é movido apenas pela busca de felicidade, mas por uma relação complexa e, muitas vezes, paradoxal com aquilo que o faz sofrer — e do qual, ainda assim, ele não abdica.
