Vendo vozes: uma viagem ao mundo surdos é a tradução de Seeing voices: a journey into the world of the deaf, publicado originalmente no ano de 1989 pelo famoso neurologista Oliver Sacks, falecido em 2015. No Brasil, o livro tem sido publicado pela Companhia das Letras, e esta resenha foi escrita com base na edição de 2010, presente na série Companhia de Bolso. São 191 páginas de texto (com as notas de fim), e a tradução é de Laura Teixeira Motta.
Em geral, o livro discute um conjunto de pesquisas sobre as surdezes pré-linguística e pós-linguística. A surdez pré-linguística (congênita ou adquirida) é a estabelecida antes da fase de aquisição da linguagem oral, por volta dos dois anos. A surdez pós-linguística é a adquirida depois da fase em que os sujeitos já possuem fluência oral. Segundo Sacks, o título do livro foi sugerido por uma sobrinha, e deriva das palavras de Píramo a Tisbe: “Vejo uma voz […]”.
O texto está organizado em três capítulos.
No primeiro, o autor busca desenvolver uma história das relações entre nossa cultura e a surdez. A força central nesse argumento consiste em mostrar como a condição de surdez esteve relacionada a formas muito cruéis de exclusão. A história da surdez, especialmente da surdez pré-linguística, é uma história de exclusão e de calamidade, tanto no espaço público das interações sociais, quanto no espaço privado das relações familiares.
A partir de relatos de casos clínicos, o autor discute os efeitos de diagnósticos tardios de surdez pré-linguística para as crianças. E não foram poucos os casos em que diagnósticos tardios de surdez pré-linguística induziram a diagnósticos equivocados de “retardo mental”. Excluídos do campo da linguagem verbal, e sem acesso à língua de sinais, muitas crianças surdas foram consideradas “retardadas”.
Sacks também discute as divergências entre os “oralistas” e os defensores de uma educação na linguagem dos sinais para os surdos. Os oralistas partiam da crença na possibilidade do desenvolvimento da linguagem verbal nos surdos. Atrelados a uma visão normalizadora da ciência, pretendiam promover inclusão a partir da adaptação radical dos surdos ao mundo dos ouvintes. Negavam, portanto, a surdez como uma possibilidade de experiência sensorial peculiar. Toda a narrativa dá a entender que o autor do livro se posiciona desfavoravelmente em relação à essa tendência.
O segundo capítulo, que de acordo com o autor é “o cerne do livro”, no meu modo de entender é o mais “neurológico” de todos. Isso porque é nele que Oliver Sacks apresenta um dos argumentos mais instigantes do livro: o de que a surdez proporciona uma compreensão muito interessante sobre as potencialidades do sistema nervoso central (SNC). Na verdade, aqui o autor segue uma tendência peculiar em toda sua obra como escritor: a de que as patologias têm seu aspecto positivo, por revelar importantes elementos acerca do funcionamento da mente. Mais do que isso: elas podem ser expressões legítimas de outros modos de relação com a realidade, sem que necessitem ser “normalizadas”.
Em diálogo com a literatura médica e científica do momento, Sacks discute as implicações que as surdezes pré-linguística e pós-linguística têm para o reordenamento das funções dos hemisférios direito e esquerdo do cérebro. Seu argumento é o de que a surdez impõe uma forma de reordenamento das funções do SNC, potencializando nos surdos certas sutilezas no processamento cortical de estímulos visuais que os ouvintes não possuem. É no contexto dessa discussão que o autor defende entusiasticamente o caráter da língua de sinais como uma língua sui generis, com estrutura gramatical e sintática próprias, e que exige processos neuronais muito peculiares. Isso coloca em xeque, segundo o autor, as visões simplistas que encaram as muitas línguas de sinais presentes no mundo como meras pantomimas relacionadas às línguas faladas.

O terceiro e último capítulo é o mais contemporâneo do livro, pois trata dos avanços políticos relacionados à surdez, especialmente no campo da Educação. Oliver Sacks entende que as instituições religiosas estão entre aquelas poucas em que a linguagem dos sinais recebe a devida valorização. Há, inclusive, um relato de sua participação em um culto cristão todo realizado na Língua Americana de Sinais. Do ponto de vista das políticas públicas, a Venezuela e o Uruguai são descritos como os países latino-americanos mais avançados nesse tocante, por apresentarem políticas voltadas para o ensino realizado na língua dos sinais para surdos.
Este último capítulo, entretanto, consiste quase que em sua totalidade em um diário de campo de um dos eventos paradigmáticos para as transformações políticas mais importantes em relação aos surdos na atualidade. Trata-se dos protestos ocorridos no ano de 1988 na instituição mais tradicional de formação universitária para os surdos nos Estados Unidos: a Gallaudet University (fundada por Edward Gallaudet em 1817). Em síntese, os protestos giraram em torno da reinvindicação de um reitor surdo para a Gallaudet, o que nunca havia ocorrido em toda sua história. Os relatos coletados por Sacks comparam esse evento ao Movimento pelos Direitos Civis na década de 1960.
Entretanto, a narrativa do protesto dos surdos na Gallaudet University não é a exaltação da mera transformação nas relações hierárquicas de uma instituição. A eleição do primeiro reitor surdo na instituição universitária mais importante para surdos nos Estados Unidos remete à uma nova tomada de consciência, que consiste na recusa da visão subserviente dos surdos em relação aos ouvintes e suas propostas de “inclusão”. Na compreensão de um surdo, relatada no livro por Oliver Sacks, estes devem ser considerados como “um único povo, com cultura própria, com língua própria, que os distingue das pessoas ouvintes”. O próprio Oliver Sacks vai falar dos surdos em todo o mundo como “um povo adaptado a outro modo sensorial”. Esse “outro modo”, tão legítimo quanto o modo-ouvinte, deve ser respeitado, e, por que não, celebrado.
Por razões óbvias o livro se dirige, em primeiro lugar, a todas as pessoas que lidam com surdos: profissionais da saúde, educadores, familiares etc. Mas eu acredito que a grande mensagem desse livro não é técnica, mas política. Isso faz com que seu público se amplie consideravelmente. Creio que precisamos lê-lo de olho em nosso próprio tempo. Desde que o livro foi escrito (1989), muita coisa mudou em relação a esse assunto, especialmente no campo das políticas públicas no Brasil. Desse modo, o livro nos ajuda a colocar em questão as formas de “inclusão” com as quais queremos nos engajar. Como se diz hoje com certa profusão, algumas inclusões são perversas. Não estão atentas à singularidade de certas experiências humanas. Incluem com base na norma, o que no fundo acirra a exclusão.
Conforme essa leitura, foi muito importante saber da existência de uma “cultura surda”, ou de uma “cultura dos surdos”. Há intelectuais surdos, escritores surdos, artistas surdos de um modo geral. Há comunidades exclusivamente surdas no mundo. Reconhecer a legitimidade desses outros modos de existência é fundamental para a criação de um tipo de sociedade em que ninguém seja invisível.
Se quiser se aprofundar nesse tema, e em outros relacionados, consulte o catálogo da Plataforma Ser Psicólogo. Lá você encontrará cursos de introdução e atualização que lhe proporcionarão o aprofundamento necessário para uma atuação profissional qualificada.
Para aprofundamento:
O papel do Psicólogo Escolar no Brasil
Atendimento psicológico à pessoa surda por meio da LIBRAS: uma revisão de literatura