Este é um artigo sobre as possibilidades de atuação dos psicólogos humanistas, possibilidades que vão muito além do trabalho em psicoterapia. Um mergulho na totalidade da obra escrita de Carl Rogers revela que, desde muito cedo, as pretensões desse psicólogo se expandiram para muitos espaços além da clínica psicológica.
É correto afirmar que, mais do que uma teoria psicoterápica, a partir de determinado momento Rogers passou a imaginar que seu pensamento pudesse se traduzir em uma ampla filosofia, capaz de influenciar variados setores da atividade social. Este artigo busca refletir sobre a incidência da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) em alguns desses setores, entre os quais se encontra a educação escolar.
Inicialmente, gostaríamos de resumir o ponto de vista geral de Rogers acerca do sistema educacional formal de sua época, apresentar os contrapontos formulados por ele a esse sistema e, então, refletir sobre o que podem fazer os psicólogos humanistas quando incumbidos do trabalho em Psicologia Educacional e Escolar.
Rogers foi um crítico visceral do modelo hegemônico de educação formal de seu tempo, presente desde a educação básica até o ensino universitário. Embora sua crítica tenha sido formulada na década de 1950, em um contexto social bastante diferente do nosso, ela contém elementos que permanecem relevantes e antecipa, inclusive, inovações pedagógicas muito valorizadas na atualidade.
O centro dessa crítica pode ser localizado no autoritarismo das diferentes formas de ensino e no consequente apagamento do protagonismo dos estudantes durante o processo de ensino-aprendizagem. Isso se relaciona à inquietante convicção de que a aprendizagem só existe efetivamente enquanto autoaprendizagem.
Aquilo que é imposto externamente, como resultado de exigências curriculares, pode até ser memorizado por algum tempo. Mas somente aquilo que o estudante descobre por si mesmo, de maneira autônoma e curiosa, pode ser de fato aprendido. Isso ocorre porque, para Rogers, o autoritarismo pedagógico constitui uma forma de negação da tendência atualizante, que também se expressa como vontade de aprender.
Uma das consequências práticas desse posicionamento é a crítica de Rogers aos sistemas de avaliação da aprendizagem, que culmina em seu polêmico posicionamento a favor do fim dos exames – as famosas “provas” –, das notas, dos diplomas, das titulações e de outras formas de certificação. Para Rogers, todos esses elementos funcionam como mecanismos capazes de estancar a aprendizagem. Sua supressão dos sistemas educacionais, por outro lado, permitiria que a aprendizagem se transformasse em um fluxo contínuo, livre e espontâneo.
Uma das expressões mais limitantes do autoritarismo pedagógico, segundo Rogers, é a padronização e a homogeneização do processo de ensino-aprendizagem, no qual todos devem aprender os mesmos conteúdos, no mesmo ritmo e pelos mesmos meios. Isso representaria uma enorme contradição diante da diversidade da vida e das características individuais dos sujeitos que aprendem.
Lembremos que, ao refletir sobre essas questões, Rogers procurava explorar os paralelismos que acreditava existir entre a psicoterapia e a educação formal. A viabilidade dessas comparações se justifica pelo fato de ambas – a educação e a terapia – serem, cada uma a seu modo, espaços de aprendizagem e de qualificação das subjetividades.
Em termos mais próximos da teoria rogeriana, tanto a terapia quanto a educação escolar são espaços de exploração da tendência atualizante. Afinal, é evidente que a educação constitui uma das formas mais importantes pelas quais os sujeitos expandem seus próprios potenciais e amadurecem sua relação com o mundo.
Mas Rogers foi além da crítica, propondo importantes mudanças na educação formal, algumas delas reconhecidas e aplicadas atualmente. O conceito de aprendizagem significativa, compartilhado com outros importantes pesquisadores da área educacional, é um desses exemplos.
Em Rogers, a aprendizagem significativa é aquela que não apenas faz sentido para os estudantes, como dizia Paul Ausubel, mas que, além disso, promove modificações importantes em sua personalidade. Ou seja, a aprendizagem torna-se significativa quando vai além da simples memorização de conteúdos, afetando o sujeito de tal maneira que se verifica uma expansão de seu repertório comportamental. O sujeito não apenas cresce em saber; cresce também em saber ser.
Rogers também incluiu as políticas curriculares em sua crítica. Isso é muito importante, pois evidencia que uma reforma educacional não deve se resumir à mudança das didáticas, como se apenas professoras e professores devessem implicar-se nesse processo. Ao debater questões curriculares, Rogers nos indica que essa reforma precisa ir muito além das salas de aula. Ela precisa ser sistêmica e estrutural, incluindo os espaços institucionais nos quais são tomadas as decisões sobre as políticas educacionais.
Mas o que esse autor propôs exatamente acerca dos currículos?
Convencido da esterilidade de um ensino fundamentado em currículos que ostentavam conteúdos abstratos e distantes da realidade concreta dos estudantes, Rogers sugeriu que todo ensino fosse baseado na resolução dos problemas reais com os quais eles conviviam.
Ele sugeriu que os currículos fossem construídos de modo a interpelar a juventude diante dos problemas reais que atravessavam a realidade social de seu tempo. Estamos falando, portanto, de outra política de ensino, visto que não existe ensino despolitizado, nem mesmo aquele que se apresenta como pretensamente neutro e baseado em conteúdos abstratos.

Feitos esses breves resumos sobre o pensamento educacional de Rogers, cabe-nos comentar o que podem fazer os psicólogos humanistas quando inseridos no contexto do ensino formal. Tendo em vista que profissionais de outros campos, especialmente da Pedagogia, também poderiam ser incluídos nesta reflexão, vou me concentrar na atuação a partir da Psicologia Educacional e Escolar (PEE).
Não existe, em Rogers, uma Psicologia da Educação constituída como um sistema teórico complexo e formal. O que encontramos em sua obra é um conjunto de provocações voltadas para esse contexto, exemplificadas por alguns dos conceitos anteriormente apresentados. Por isso, psicólogos educacionais e escolares, mesmo aqueles que praticam a ACP, devem estar bem munidos dos conhecimentos disponíveis no campo da PEE, que oferecem os fundamentos teóricos para esse tipo de atuação.
Nas últimas décadas, inclusive, esse campo teórico tem demonstrado enorme fecundidade e capacidade de inovação, especialmente como forma de superar atuações baseadas em intervenções individualistas voltadas para os chamados “alunos-problema”. Assim, as contribuições de Rogers devem ser compreendidas como complementos oportunos para esse trabalho.
Para ficarmos com alguns exemplos da educação básica, esses complementos podem aparecer em todas as atividades desenvolvidas no interior da comunidade escolar: desde os contatos diretos com os alunos até os treinamentos voltados para a equipe técnica; desde o contato com as famílias até a participação em reformas ou na construção de um Projeto Político-Pedagógico (PPP); desde a atenção às dificuldades gerais de aprendizagem até os desafios relacionados à inclusão de alunos com necessidades educacionais específicas.
Todas as práticas desenvolvidas no campo da PEE podem ser atravessadas pelas contribuições da ACP. Em qualquer uma delas, é possível formular a seguinte pergunta: aquilo que está sendo feito favorece o crescimento e o amadurecimento dos potenciais do aluno?
De posse desse princípio hermenêutico, o psicólogo humanista perceberá que, em todos os espaços, existem obstáculos ao desenvolvimento e à aprendizagem. Alguns deles deverão ser localizados no âmbito familiar, seja em razão da negligência, da violência ou da ignorância, infelizmente ainda muito presentes em muitas relações. Outros deverão ser localizados na própria instituição escolar, seja em práticas pedagógicas antiquadas e anacrônicas, seja em outros elementos desfavoráveis ao pleno desenvolvimento dos alunos.
Outros obstáculos, ainda, deverão ser localizados no âmbito político e sistêmico, traduzindo-se em condições precárias de trabalho e no esgotamento da saúde dos agentes pedagógicos. Finalmente, alguns deles serão encontrados nos próprios alunos, na forma de condições de saúde que impõem desafios à aprendizagem escolar.
Atuar com base em estratégias capazes de mitigar esses obstáculos é o convite que se faz aos psicólogos humanistas inseridos no trabalho com a educação formal.
Para concluir, compreendemos que os psicólogos humanistas, quando atuam em PEE, são agentes decisivos para o aprimoramento das relações.
Faz parte da filosofia da ACP o entendimento de que as relações são decisivas para que alguém se torne aquilo que é. Ou seja, é no interior delas que nos constituímos ao longo da vida. Rogers falava das relações de ajuda, expressão com a qual designava qualquer tipo de relação capaz de fomentar o desenvolvimento da personalidade de um de seus participantes. Assim, as relações de ajuda podem estar por toda parte: na família, nas amizades, nas relações íntimas e nas relações proporcionadas pela educação formal.
Uma comunidade escolar coloca em relação muitos sujeitos: crianças, professores, funcionários, famílias e comunidades. Ali se produzem relações em todas as direções: entre alunos e alunos; entre professores e alunos; entre professores e professores; entre gestores e alunos; entre gestores e professores; entre professores, gestores e famílias. Algumas dessas relações tendem a ser mais respeitosas e pacíficas; outras, mais tensas e desafiadoras. Fenômenos como as diferentes formas de violência intraescolar, por exemplo, ainda fazem parte da realidade de muitos contextos educacionais.
O trabalho sobre essas relações será sempre um importante campo de atuação para os psicólogos humanistas na educação formal. Existem, inclusive, desdobramentos posteriores à obra de Rogers que oferecem inúmeras possibilidades de intervenção afinadas com a filosofia humanista. O que chamamos de comunicação não-violenta, desenvolvida por Marshall Rosenberg, é um dos melhores exemplos.
Obviamente, tudo isso depende da realização de bons diagnósticos institucionais. É a partir deles que cada profissional poderá selecionar os meios de intervenção mais adequados.
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Contribuições da psicologia de Rogers para a educação: uma abordagem histórica
