Segundo a economista britânica Noreena Hertz, estamos vivendo a época de maior incidência de pessoas solitárias da história. Esse é o tema de seu livro O século da solidão: reestabelecer conexões em um mundo fragmentado, escrito durante a pandemia de Covid-19 e lançado no Brasil em 2021. Nas páginas iniciais de sua obra, ela afirma:
Em todo o mundo, as pessoas se sentem solitárias, desconectadas e alienadas. Estamos no meio de uma crise global de solidão. Nenhum de nós, em nenhum lugar, está imune.
Não estamos falando da experiência que nos acostumamos a chamar de solitude, relacionada ao sentimento de autossuficiência e vivida como uma espécie de solidão programática. Estamos falando do isolamento compulsório, criado por uma série de circunstâncias sobre as quais os indivíduos não têm controle.
A definição de solidão apresentada pela autora é muito interessante e vale a pena ser mencionada aqui. Segundo ela, a solidão transcende o isolamento físico. Além deste, sentir-se só tem a ver com déficits de pertencimento, de propósito de vida e de utilidade social. Em suas palavras:
Sentir-se solitário é também nos sentirmos não apoiados e não cuidados por nossos concidadãos, empregadores, nossa comunidade, nosso governo. É nos sentirmos desconectados não apenas daqueles de quem deveríamos nos sentir íntimos, mas também de nós mesmos. Não se trata apenas de não ter apoio em um contexto social ou familiar, mas de sentir excluído política e economicamente.

Para Hertz, há um conjunto de fatores que nos levaram a essa situação, incluindo elementos da economia, da política, do mundo do trabalho e da ideologia. Em seu livro, a autora apresenta um resumo de dados estatísticos que nos mostram como esse é um problema global, o que nos permite falar em uma pandemia de solidão.
A solidão não seria um problema circunscrito à dimensão individual. Sua disseminação global, segundo Hertz, tem relação com fenômenos políticos, como o fortalecimento dos projetos de extrema-direita, além de produzir muitos impactos negativos na saúde coletiva. Em alguns países europeus, como o Reino Unido, já existem intervenções estatais relacionadas a esse tema, como a criação de um Ministério da Solidão.
Vale dizer que esse fenômeno global tem estreita correlação com o envelhecimento da população ao redor do mundo. Como explica Simone de Beauvoir em seu livro A velhice, de certa forma, a solidão sempre foi um desafio para os mais velhos nas sociedades capitalistas. Contudo, como explica Hertz, em nosso tempo ela não diz respeito apenas a essa faixa etária, atingindo também jovens e adultos com o mesmo rigor.
Nas palavras da autora, a solidão mata. Com essa tese, ela afirma que existe uma correlação direta entre a solidão e a vulnerabilidade a muitas doenças graves. Entre elas, menciona a doença coronária, os acidentes vasculares cerebrais (AVCs), as demências, além do risco de morte prematura.
Deve-se incluir também a vulnerabilidade aos adoecimentos no campo mental, como depressão, estresse crônico, transtornos de ansiedade, impactos na qualidade do sono, o aumento do alcoolismo e o risco de morte por suicídio.
Mas por que a solidão é tão danosa para a saúde em geral e, em particular, para a saúde mental? Porque, de acordo com Hertz, a solidão contradiz aquilo para o qual fomos programados biologicamente: a vida compartilhada.

Em suas palavras, tomando como base as perspectivas da biologia evolucionista:
Fomos programados para não ficar sozinhos. […] Como todos os primatas, os humanos são animais sociais. […] Estar conectado a outros é o nosso estado natural e, na verdade, desejado, quer esse desejo seja consciente quer não. É por isso que não estarmos conectados uns aos outros tem um impacto tão negativo e profundo sobre a nossa saúde.
Com essas palavras, a autora não está romantizando a convivência humana. Como sabemos, a convivência humana impõe muitos desafios, visto que, além do caráter gregário, também somos marcados por uma profunda diversidade de ideias e de concepções da vida. E é justamente essa diversidade que está na raiz de uma série de conflitos, com consequências negativas para as sociedades.
O que se afirma aqui é que o isolamento e a solidão não são os antídotos para os desafios de se conviver em sociedade. Nesse sentido, esta é uma ótima oportunidade para atualizar a metáfora da comunidade dos porcos-espinhos, contada originalmente por Arthur Schopenhauer e popularizada por Sigmund Freud. Ou aprendemos a conviver uns com os outros, suportando os nossos “espinhos”, ou morremos todos no “frio” da solidão.
Um dos tópicos mais interessantes desse debate, com o qual Noreena Hertz abre seu livro, tem a ver com a seguinte contradição: o século da solidão é, ao mesmo tempo, o século das interconexões proporcionadas pelas tecnologias da comunicação. Embora as sementes da epidemia de solidão tenham sido germinadas ainda no século XX, é no século XXI, em meio à interconectividade proporcionada pela Internet, que ela ganha dimensões pandêmicas e globais.
Isso nos coloca diante de um fato incontestável: o tipo de conexão proporcionado pela Internet, em geral, e pelas redes sociais, em especial, não supre nossas necessidades de conexão humana. Esse é um tema que já vinha sendo tratado pela Sociologia, com destaque para as análises de Zygmunt Bauman e sua discussão sobre a “fragilidade dos laços humanos”, própria de nossa época.
Às conexões virtuais faltam certas qualidades próprias da experiência off-line e analógica, que só podem ser cultivadas por meio do contato profundo e contínuo com a materialidade da vida.
Desse modo, que saídas encontramos para um dilema com esses contornos?
No texto de Hertz, a resposta a essa questão é clara e direta: o oposto da solidão não é a mera companhia, mas o sentimento de pertencimento.
Para fundamentar essa tese em bases empíricas, a autora menciona um conjunto de pesquisas nas quais se afirma a correlação entre vida em comunidade e elevação da saúde e da longevidade. Dentre os exemplos citados, está o trabalho de pesquisa sobre as chamadas Zonas Azuis, localidades geográficas espalhadas por todo o mundo em que as pessoas vivem com qualidade e alcançam uma longevidade muito acima da média mundial.
As Zonas Azuis estão representadas por cinco localidades: Sardenha (Itália), Okinawa (Japão), Icária (Grécia), Península de Nicoya (Costa Rica) e Loma Linda (Estados Unidos). Esses grupos se diferenciam por seus hábitos alimentares saudáveis e por sua rotina estruturada, mas é o senso comunitário que, segundo Hertz, faz delas espaços de produção de qualidade de vida e longevidade.

Pensando esses desafios à luz da Psicologia, temos aqui a reflexão sobre um dos determinantes sociais mais desafiadores quando se trata do adoecimento psíquico. Com isso, podemos deduzir que as políticas de prevenção ao adoecimento em geral, e ao adoecimento mental em particular, devem fomentar a participação comunitária, sobretudo aquela que eleve a sensação de pertencimento e o senso de propósito de vida.
Sem dúvida, estes são desafios que exigem proposições assertivas do Estado e dos próprios indivíduos. E, por sua importância nos dias de hoje, esses mesmos desafios não podem passar despercebidos por aqueles profissionais que se dedicam ao bem-estar da “alma” humana.
Para aprofundamento
Paranóia e solidão: consequências sociais desse transtorno
Solidão e afetos:
concepções clínico-existenciais
