Transtornos da Personalidade e o estigma da periculosidade

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Dentre o amplo leque de padrões dominantes nos Transtornos da Personalidade (TPs), a antissocialidade é um dos que mais chamam a atenção das pessoas em geral. Na literatura científica sobre esse tema, o termo antissocial tem um sentido diverso daquele que lhe dá o senso comum. Neste, as pessoas antissociais são aquelas que evitam a proximidade das relações em uma atitude padronizada de esquiva. Ou seja, para o senso comum a pessoa antissocial é aquela que mantém distância em relação aos outros, preferindo atividades solitárias.

Por outro lado, o que os manuais nosológicos definem como antissocialidade tem a ver com padrões de comportamento que se opõem aos direitos dos outros, a uma postura autocentrada, performada com ausência completa de empatia. Em outras palavras, diríamos que a pessoa dominada por padrões antissociais vive em rota de colisão com o que chamamos de laço social.

O laço social é um conjunto de normas silenciosas que tornam a vida em coletividade possível. O respeito aos próprios limites, o respeito aos direitos das outras pessoas, e a possibilidade de cooperação são partes do laço social. Internalizamos esse laço ao longo de nossas tragetórias, e é também por causa dele que a vida em sociedade é possível, ainda que com as suas dores.

Isso a que apelidamos muito mal como psicopatia é uma manifestação desse traço que chamamos de antissocialidade. Em nosso imaginário social a figura do psicopata desperta enorme curiosidade. Em torno dela a dramaturgia cria personagens instigantes, capazes dos comportamentos mais mordazes. Psicopatas continuam a encher salas de cinema e continuam ajudando autoras e autores mundo afora a vender livros. Isso porque essa figura alimenta uma importante produção literária, cujo objetivo é “desvendar” a sutileza dos traços mais característicos desses indivíduos.

Por essas razões o conceito de psicopatia ajudou a difundir a ideia de que pessoas com TPs são temíveis e perigosas. Como sabemos, na história da saúde mental esse estigma esteve primeiramente associado à loucura. Além de inútil à nova ordem do capitalismo em ascensão, o louco é um indivíduo perigoso sobre o qual estão autorizadas quaisquer medidas cautelares contra a sua vontade.

O “louco criminoso” segue esse rastro, de modo que a psicopatia herda as representações anteriormente próprias da loucura, com o agravante de se tratar de indivíduos que não perderam completamente sua capacidade de discernimento. Ou seja, se o louco, enquanto um sujeito marcado pela total desrazão, deve ser considerado como um perigo ambulante, o psicopata muito mais, justamente por suas capacidades racionais preservadas.

A despeito disso, é justo tratar as pessoas com diferentes TPs como perigosas? Essa ideia tem raízes na realidade, ou é mais um estigma historicamente construído e que devemos recusar de modo categórico? Vejamos alguns argumentos que indicam que a verdade está na segunda afirmação.

Tão complexas quanto qualquer pessoa

Uma forma de combater a associação direta entre TPs e periculosidade é refletir sobre a complexidade de todos nós. Toda personalidade pode ser compreendida como um conjunto de traços que se constituem ao longo do ciclo vital, e que, juntos, conferem à pessoa o seu modo de ser único no mundo. Os estudos com gêmeos nos indicam que mesmo quando os indivíduos compartilham a genética e o mesmo ambiente durante as fases críticas de sua formação, podem surgir daí pessoas com magnitudes diferentes em diferentes traços de personalidade.

Tomemos como exemplo os seis traços dominantes presentes nos TPs e identificados pela CID-11:

  1. Afetividade negativa
  2. Distanciamento
  3. Antissocialidade
  4. Desinibição
  5. Anancastia
  6. Padrão borderline.

Para a CID-11, esses são os padrões mais frequentes presentes nas pessoas com o Transtorno da Personalidade, embora não sejam diagnósticos específicos. Nessas pessoas esses traços são estruturas que dominam todo o seu modo de ser, provocando desconforto e problemas de adaptação social. No dizer de Jeffrey Young, propositor da Terapia do Esquema (TE), trata-se, nestes casos, dos pacientes ditos caracteriológicos.

Mas o que quase nunca se diz é que esses traços estão de uma certa forma presentes em todas as pessoas. O que diferencia uma pessoa sem um TP de uma outra com um TP não é a presença ou a ausência de elementos patológicos, mas a magnitude que encontramos em seus traços de personalidade. Por exemplo, todas as pessoas possuem certo nível de afetividade negativa, ou de tendência ao distanciamento, ou de padrões de antissociais. Dizemos que isso não se configura como um transtorno quando esses traços não chegam a ser dominantes, de maneira que imponham sofrimento clinicamente relevante e desadaptação em relação ao convívio social.

Em outras palavras, poderíamos também dizer que há um continuum entre pessoas sem e pessoas com TPs. Nem sempre é fácil saber onde estão os limites entre uma condição e outra. Alguns autores, inclusive, indicam que esse limite não existe. Discutindo esse tema, Jeffrey Young nos diz que “a terapia do esquema normaliza, em vez de patologizar, os transtornos psicológicos. Todo mundo tem esquemas, estilos de enfrentamento e modos, simplesmente mais extremos e rígidos nos pacientes que tratamentos” [grifo nosso].

Em certa ocasião ouvi de um usuário de um Caps AD que “todas as pessoas possuem seus próprios vícios”. Isso me parece verdadeiro, de modo que o que as diferencia é o tipo e o nível de dependência. Pessoas com TPs, portanto, são tão complexas e desafiadoras quanto qualquer pessoa, apesar de terem traços de personalidade que lhes prejudicam mais consistentemente.

De onde vem o perigo social?

Outra maneira de fazer frente aos potenciais estigmas que associam os TPs à periculosidade é perguntarmos sobre a origem da violência em uma sociedade como a nossa. Essa é uma pergunta complexa, que nos remeteria à história de formação de nossa sociedade e suas múltiplas contradições. Por isso, digamos simplesmente que as diferentes formas de violência que encontramos no cotidiano da sociedade brasileira são praticadas, quase em sua totalidade, por pessoas sem nenhum diagnóstico de transtornos mentais.

O Brasil é um país onde abundam diversas e variadas formas de violência. Elas vão desde a violência física, materializadas nas milhares de mortes por arma de fogo a cada ano, passando pela violência doméstica na forma de feminicídios, e por outras formas como a violência policial, política e institucional, além daquela ligada ao crime organizado. Quem pratica essas formas variadas de violência? Sob quais alegações e motivados por quais fatores?

Não é possível psicologizar fatos sociais desse porte. Uma leitura desse tipo não escapará ao reducionismo e à simplificação. A complexa realidade da violência no Brasil assenta suas origens em nossa história de formação social, e nos processos de subjetivação que dela decorrem.

Evidentemente, pessoas com TPs podem se envolver em situações de violência. Traços de antissocialidade, ou mesmo aqueles relacionados aos padrões borderline, podem até proporcionar implicações jurídicas, e em algumas situações, penais. Mas isso não costuma ser uma regra. Estamos nos referindo aqui aos casos mais graves, e àqueles que envolvem sujeitos que não estão fazendo nenhuma forma de acompanhamento especializado.

Quando pessoas com tais características (casos graves e sem acompanhamento) vivem situações por elas consideradas como perturbadoras e desafiadoras, elas de fato podem apresentar respostas agressivas dada sua inabilidade na gestão das próprias emoções. Entretanto, não podemos fazer casuística aqui. Na população que convive com TPs os desfechos violentos tendem a ser episódicos e pontuais, e sem relevância estatística suficiente para transformá-los em regra.

Dentre todas essas condições, a antissocialidade é o traço que mais pode levar uma pessoa a cometer gestos de violência. Essa violência pode ser física, patrimonial, psicológica ou de outra natureza. Mas há pouquíssimos diagnósticos de personalidades antissociais de fato, o que nos desautoriza a usá-los para reforçar estigmas e fazer generalizações envolvendo outras condições psíquicas. Para compreender a periculosidade, precisamos, portanto, buscar explicações em outras fontes.  

“Viver é muito perigoso”

Finalmente, para combater os estigmas associados aos TPs é preciso reconhecermos as formas do sofrimento que encontramos no interior dessa população. Muito mais do que se constituírem como um risco para os outros, os prejuízos sociais experimentados pelas pessoas com TPs diz respeito à redução de sua própria qualidade de vida. Mais do que os outros, são elas mesmas que sofrem com as agruras de sua condição psíquica.

Os prejuízos sociais das pessoas com TPs atingem vários de domínios de sua vida, e a depender do grau com que cada quadro se manifeste, algumas relações podem ser bastante afetadas. Isso é tão relevante, que os prejuízos sociais são entendidos como critérios diagnósticos para os TPs. Em outros termos, não pode haver diagnósticos de TPs se não há o reconhecimento de múltiplos prejuízos em variados domínios da vida. O foco aqui recai sobre as relações, que são espaços onde as pessoas com TPs apresentam maiores dificuldades.

Obviamente, uma vez em que estamos falando de relações, as pessoas que precisam conviver com alguém com um TP também acabam sendo prejudicadas. Os campos em que mais notamos essa dinâmica são as relações familiares, as relações de trabalho, e as relações íntimas (amorosas). Mas apesar disso, é necessário diferenciarmos relações conturbadas de relações de violência. E aqui também assumimos a existência de um continuum entre as pessoas com TPs e as pessoas sem TPs, visto que as relações, quaisquer que sejam, são sempre desafiadoras e cheias de percalços para todo mundo.

Quando escapamos do reducionismo de pensar os TPs sem as lentes do imaginário social sobre a psicopatia, descobrimos que o nosso grande desafio com essa população não é domar seus “instintos agressivos”, mas cuidar do seu sofrimento. Pessoas com transtornos mentais em geral, e com TPs em particular, são muito suscetíveis a desenvolver diversas comorbidades, às vezes não percebidas nos ambientes clínicos. Essas comorbidades podem ser muito variadas, e quando não tratadas podem comprometer ainda mais a qualidade de vida.

Sintomas psiquiátricos como a depressão e a ansiedade patológica, por exemplo, costumam ser muito frequentes nesta população. Para algumas pessoas com TPs, o Transtorno por Uso de Substâncias também costuma ser muito frequente, visto que o uso abusivo de tais substâncias tende a ser encarado como uma estratégia de coping pelos sujeitos. Na prática, o que se tem é o aprofundamento do sofrimento e o reforço aos estigmas.

Não são as pessoas com TPs que são perigosas. “Viver é muito perigoso”, diria João Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas. E as pessoas com TPs não podem ostentar para si os níveis de periculosidade que o imaginário social lhes atribui. Uma de nossas tarefas no trabalho com a saúde mental tem a ver justamente com o combate a essas representações arcaicas e sobretudo injustas.  

***

Se este tema lhe interessar mais profundamente, acesse à Plataforma Ser Psicólogo, pois nela você encontra uma trilha completa de cursos sobre cada um dos TPs, seguindo as categorias encontradas no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V-TR). Nestes cursos, exploramos aspectos históricos, conceituais, diagnósticos e terapêuticos dos TPs, além de oferecermos exemplos de casos clínicos para cada um deles.

Para aprofundamento 

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Paulo Nascimento

Psicólogo, mestre em Psicologia e doutor em Linguística. Tem experiência em docência do ensino superior desde 2013, além de nos campos Educacional e Escolar e nas políticas públicas de Saúde Mental. É psicoterapeuta de jovens, adultos e idosos, e professor conteudista sênior na Ser Psicólogo. É autor dos livros: "Porque sou psicoterapeuta humanista", "Psicologia do luto em tempos de Covid-19", "Como trabalha um psicólogo centrado na pessoa" e "Transtornos da personalidade: cuidado em perspectiva crítica".
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