A história da Psicologia indica que pelo menos dois contextos estão frequentemente associados ao surgimento das teorias psicológicas: o contexto clínico e o contexto universitário. Há também casos em que ambos se combinam, isto é, quando os casos clínicos se tornam objeto de pesquisa no ambiente acadêmico.
Os exemplos são abundantes. Tomemos primeiro a psicanálise. Ela é um exemplo de teoria psicológica que nasce do contato com casos clínicos. Quando Freud iniciou seus atendimentos, os pacientes compareciam ao consultório todos os dias, e não havia um tempo preestabelecido para as sessões, como é prática corriqueira hoje. Por meio da descrição e da análise desses casos, Freud foi construindo sua teoria, que, diga-se de passagem, esteve sempre aberta a revisões.
O mesmo se pode dizer de Carl Rogers. Foi o contexto dos atendimentos psicoterápicos que lhe forneceu os insights para aquilo que mais tarde seria denominado Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). No caso de Rogers, esse movimento implicou um afastamento progressivo da psicanálise. Segundo ele, foram os próprios clientes que lhe forneceram praticamente tudo o que sustentaria a teoria que viria a conceber.
Desde suas origens, a Psicologia também sempre esteve vinculada aos ambientes universitários. Diferentemente do que ocorre nos contextos clínicos, a curiosidade científica – materializada tanto em pesquisas básicas quanto aplicadas – propiciou o surgimento de inúmeras teorias psicológicas. O Estruturalismo e o Funcionalismo, a Psicologia da Gestalt e a Psicologia Comportamental são bons exemplos dessa tendência.
Mas o que tudo isso tem a ver com o trabalho de Viktor Frankl?
A Logoterapia não nasce dos ambientes clínicos, tampouco do contexto universitário: ela nasce do chão bruto da vida, a partir de uma situação de sofrimento extremo, decorrente do genocídio judeu na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). É sobre isso que nos informa o livro mais famoso de Viktor Frankl, Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração.

Em sua edição atual, o livro é composto por três ensaios.
O primeiro, intitulado Em busca de sentido, apresenta uma narrativa dos anos que Frankl passou em Auschwitz, o mais terrível dos campos de concentração nazistas. Nesse ensaio, o autor descreve os impactos psicológicos que a vida em Auschwitz produziu nos prisioneiros, organizando essa narrativa em três momentos: os impactos da chegada ao campo, os do cotidiano e os da libertação.
O segundo ensaio, Conceitos fundamentais da Logoterapia, apresenta em forma dissertativa os principais construtos teóricos da Logoterapia, como “vontade de sentido”, “neuroses noogênicas”, “noodinâmica”, entre outros. Além disso, o ensaio traz uma importante crítica à Psiquiatria da época e a proposição de sua humanização. A crise de sentido, segundo Frankl, é o motivo fundante das principais formas de mal-estar individuais e coletivos.
O terceiro ensaio, A tese do otimismo trágico, resultou de uma palestra proferida pelo autor durante o Terceiro Congresso Mundial de Logoterapia, realizado na Alemanha em 1984. Nele, Frankl discute a capacidade humana de encontrar sentido para a vida a despeito dos aspectos trágicos da existência, como a dor, a culpa e a morte. O sofrimento, segundo ele, não é a única fonte de sentido; mas sua presença tampouco significa que a vida se reduza a um completo non sense.
No Brasil, Em busca de sentido está em sua 68ª edição (2025), publicada em parceria pelas editoras Vozes e Sinodal. A tradução do alemão é de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline, e o texto tem 224 páginas. Esta edição conta ainda com o prefácio de Gordon Allport à edição norte-americana de 1984 e com o prefácio do próprio autor à edição alemã do mesmo ano.

Apoiando-se no aforismo de Friedrich Nietzsche “quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como”, a tese de Viktor Frankl sustenta que o sentido é a melhor proteção contra o desespero e mesmo contra o suicídio, ainda nas situações mais adversas. Entretanto, tanto neste livro quanto em outras obras, o autor também sugere que a crise de sentido era uma marca decisiva de sua época. Diante disso, cabe perguntar: ainda é assim nos dias de hoje?
Se considerarmos os efeitos da crise de sentido identificados por Frankl – a violência, o uso abusivo de substâncias e as demais formas de comportamento autodestrutivo e antissocial –, somos levados a concluir que, passados mais de sessenta anos desde o surgimento da Logoterapia, essa crise permanece como uma marca profundamente arraigada em nosso tempo. É exatamente por isso que Em busca de sentido continua relevante e necessário neste primeiro quarto do século XXI.
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